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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Ambulancioterapia: o remédio amargo da farra política

No coração do interior brasileiro, onde o asfalto some e o chão vermelho de terra grita por socorro, a saúde vira espetáculo. Não é hospital com alas cheias de remédios e médicos de plantão, não. É a ambulancioterapia, esse elixir milagroso ofertado por deputados federais, estaduais e até vereadores miúdos, que chegam em comitivas barulhentas, sirenes ligadas, prometendo salvação sobre rodas.

Imagine a cena em Itapema dos Brejos ou qualquer lugarejo esquecido: o político desce do jatinho fretado, microfones na mão, e inaugura a ambulância novinha, pintada com as cores do partido. “Olha aí, meu povo! Essa belezura leva o doente pro Hospital de Urgência onde existe recurso, num piscar de olhos!”, grita ele, enquanto a multidão aplaude, esquecendo que o posto de saúde local ainda tem fila de meses pra um raio-X. A ambulância roda por uns dias, vira selfie de campanha, e logo some na garagem da prefeitura – ou pior, é “emprestada” pra levar o prefeito em romaria. Ambulancioterapia pura: trata o sintoma com alarde, mas ignora a doença crônica da falta de estrutura.

E não para por aí. Vem a farra dos ônibus da saúde, esses colossos rodoviários que devoram milhões do erário. Chegam lotados de exames grátis: ultrassom, mamografia, dentista sorridente. “Partiu pro mutirão!”, anunciam os outdoors. O deputado estadual, suado de tanto discursar, embarca meia cidade num ônibus climatizado que ruma pra capital ou até mesmo na cidade local. Lá, num ginásio alugado, o povo faz fila pra um check-up de fim de semana. Volta com um papelzinho na mão – “Volte em 30 dias” – e o político já some, deixando o doente na mesma poeira de antes. É saúde de porteira fechada: abre só pra foto, fecha pro resto do ano.

Essa ciranda brasileira, de Itapema dos Brejos a Cantão das Onças, passando por Belos Lagos e Montes Limpos, é o retrato fiel da política do pão e circo 2.0. Deputados federais mandam verbas federais pra ambulâncias que nunca saem do perímetro eleitoral; estaduais articulam emendas pra ônibus que param na eleição seguinte; vereadores, coitados, pedem carona na farra pra posar de heróis locais. Tudo isso enquanto o SAMU estadual engasga em falta de combustível, e o hospital municipal vira depósito de almas penadas.

No fim, o brasileiro interiorano ri pra não chorar. Sabe que a ambulância não cura o câncer da negligência, e o ônibus da saúde não pavimenta estradas pro futuro. É farra de sirene e diesel, mas o verdadeiro remédio – investimento em gente, em UPAs permanentes, em médicos que fiquem – continua engavetado na gaveta dos interesses. Quem dera um dia a política trocasse o holofote pelo bisturi de verdade.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

Os festejos natalinos e ano novo, em tempos de extremismos políticos

Natal em chamas políticas

Nas ruas de Cantão das Onças ou Itapema dos Brejos, onde o sereno goiano ainda resiste ao calor das paixões ideológicas, o Natal chega como um mensageiro teimoso de paz. As luzes piscam nas fachadas das casas humildes, enfeites de palha e papel crepom pendurados com mãos calejadas de trabalho público. Famílias se reúnem à mesa, o cheiro de peru assado misturando-se ao de rabanadas, e por um instante, o mundo lá fora parece distante. "Paz na terra aos homens de boa vontade", entoa o padre na missa do galo, ecoando Mateus em meio a velas tremulantes. Mas boa vontade? Em tempos de extremismos, essa frase soa como ironia.

Os extremismos políticos, esses ventos furiosos que varrem o Brasil de norte a sul, infiltram-se até nas ceias. No WhatsApp, tios bolsonaristas trocam memes furiosos contra "comunistas petistas", enquanto primos lulistas respondem com áudios inflamados sobre "golpistas fascistas". A televisão, ao fundo, alterna entre o Papai Noel comercial e debates raivosos, onde analistas gritam uns sobre os outros como cães latindo para sombras. O extremismo não poupa nem o Menino Jesus: uns o reclamam como mascote da direita moralista, outros como ícone da esquerda igualitária. E assim, o presépio vira ringue, o presépio de Belém transformado em Brasília de ódios.

A passagem de ano agrava o drama. Fogos estouram no céu de Goiás, prometendo renovação, mas o calendário novo carrega as mesmas divisões. Contamos regressivamente – dez, nove, oito – e brindamos com espumante barato, desejando prosperidade. No entanto, o extremismo sussurra: "Só para os nossos". Redes sociais explodem com promessas de "limpeza geral" em 2026, uns sonhando com interventores, outros com reformas radicais. Esquecemos que o ano novo não apaga cicatrizes; ele apenas veste as velhas feridas com confetes. Em cidades como as nossas, onde a política local ainda pulsa em vereanças e prefeituras, o extremismo se alastra como seca, polarizando até as quadrilhas juninas do futuro.

Mas há esperança no ar natalino, fina como o orvalho matinal. Imagine se, entre o peru e o panetone, ousássemos silenciar os celulares? Se, na virada, trocássemos gritos por abraços, memes por memórias? Os festejos nos lembram que o humano precede o ideológico. Em tempos de extremismos, o Natal e o Ano Novo não são feriados vazios; são convites à trégua. Que os fogos iluminem não vitórias partidárias, mas a possibilidade de diálogo. Afinal, na mesa da vida, cabemos todos – ou pelo menos deveríamos tentar.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

sexta-feira, 14 de março de 2025

CHÃO DE TIÃO

Então, Tião teve uma tempestade de ideias de sair pela Serra Dourada para coletar arnica. 

Sua cachola debulhava os dias, que ele sofria com a precisão da rodilha de filharada judiada para sustentar. 

Tião saiu cedo, sedento de mundo, que parecia querer dele se vingar. 

Não aceitava aquela sina que carregava, em ruína desde criança, sempre a pelejar. Sua filharada ficava em farrapos, de boca aberta, buscando e contando a hora certa para aparar migalhas e a barriga forrar. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

É CARNAVAL! ALEGRIA E DIVERSÃO

Em pleno carnaval da modernidade, não mais em salões de festas, aqueles grandes bailes, com  marchinhas   que   todos   sabiam   de   cor   e   realmente   cantavam, dançando e serpenteando pelos salões do país inteiro, mas, agora, em desfiles espetaculares, fantasias, carros alegóricos, passistas, baterias, porta-estandarte, celebridades,  música, muita   música, cores, festa, alegria. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O CIRCO CHEGOU

Nem sempre, "Quem conta um conto aumenta um ponto". O que vai narrado ilustra o contraditório. Vamos ao caso.

O circo Portuga l5 estreava uma nova temporada em Ipameri. Numa noite fria do inverno de 1958, nos meus doze anos,  ver um espetáculo circense era um prazer à prova de risco.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O HOMEM BOM E O HOMEM MAU

A sirene da viatura cortava o silêncio das ruas vazias. Era abril de 2020, e a cidade dormia um sono forçado, imposta ao recolhimento pela pandemia. O sargento Almeida olhava pela janela do carro enquanto dirigia. Nunca vira as avenidas tão desertas. Os bares, as lojas, os camelôs que antes se espalhavam pelas calçadas estavam agora sumidos, como se a cidade   sido evacuada. Apenas o eco dos pneus sobre o asfalto lembrava que ele ainda estava ali, patrulhando.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O DIA EM QUE O PODER MUDOU DE MÃOS

Quando era criança tinha um garoto brigão que sempre decidia quem poderia ou não participar das nossas brincadeiras. Ele tinha um poder inexplicável sobre as demais crianças e ninguém ousava questionar suas decisões, por mais absurdas, arbitrárias e infundadas que fossem. Cada semana ele escolhia os seus alvos e parecia ter um prazer sádico em ver todo mundo obedecendo, sem questionar, as suas ordens. 

E LÁ SE FOI O "TREM"


Nos anos 50, estendendo-se a meados da década seguinte , o trem era o meio mais usado nas viagens entre as cidades; particularmente, na região sul de Goiás , emblemática região da "estrada-de-ferro" .

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

COMBATE A DENGUE III

 

 

... E o Aedes chegou. Com ele a  DENGUE.  Encontrou situações   propícias   para   sua permanência   em   solo   brasileiro.   

Bem dizem, uma das características do nosso povo   é   ser   hospitaleiro.   

Encontrou fatores   geográficos   e   climáticos adequados. Também e principalmente,  fatores   sócio  econômicos   e   culturais ideais.   Somos   um   país   de   grandes contrastes e a  Dengue é democrática.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

CRÔNICA AO DENGUE II

O    Dengue,    a   Dengue...   não há consenso estabelecido quanto ao gênero gramatical da palavra, seja entre dicionários, trabalhos médico-científicos, estudiosos da literatura tropicalista brasileira, ou mesmo em publicações da OMS e do Ministério da Saúde. Contudo, apesar da ambiguidade que o envolve, a tendência predominante é de considerá-lo como substantivo feminino.

Ele pode ser ela ou ela pode ser ele, de qualquer forma existe DENGUE.

“Dengue!   Eu?”     Por   que   não?! 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

AEDES EM CRÔNICA - I

 

Descrito cientificamente pela primeira   vez   em   1762,   como   “Culex aegypti” e rebatizado como “Stegomya fasciata”,  somente por volta de 1940, após nova cerimônia de batizo, tornou-se   o   temido   “Aedes   aegypti”   e, atualmente,   um   dos   insetos   mais estudados   do   mundo.   Dentre   seus primeiros   relatos   históricos, encontramos a Ilha de Java, 1779. Nas Américas   é   relatado   há   mais   de   200 anos   e   no   Brasil   suas   portas   foram abertas   à   primeira   epidemia documentada   clínica   e laboratorialmente,   em   1981-1982   em Boa   Vista-Roraima.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

CARAVELAS URBANAS

Como uma mortalha, abriu-se ruidosamente o tecido que assentou em câmera lenta sobre o gramado seco. O professor Luciano ajoelhou-se doloroso, observando a escandalosa procissão de palmípedes que deixavam o lago, determinados a pedir-lhe migalhas. Frustraram-se, mas não sem revolta, pois a sacola cheia de comidas não foi aberta de pronto. Luciano, entrelaçando com força os dedos das mãos suadas, suspirou fundo, mirou o buritizeiro e foi direto ao assunto:

domingo, 15 de dezembro de 2024

BUTACO



                                                                              

- Seu Romuaaaaldo!!!!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

DANDO ASAS À SAUDADE

 

Ali, bem ali,  numa pedra à margem esquerda, jusante , do caudaloso Paranaíba , sentado  estava o meu avô João Pereira Machado . 

Radiante  como quem vive um sonho bom, do alto da ponte sob seus majestosos arcos, , olhava pra ele, vaidoso: "É o meu avô! Só meu!"

Caniço lançado às águas, vez ou outra, ele fisgava um dourado. Aquela cena, de repente, como visões liliputianas, transfigurava-se num reino encantado de Gulliver! Era como um  sonhar acordado na companhia augusta do segundo grande herói da minha infância! 

Como que hipnotizado pelo espetáculo das águas , explodindo em cataratas , meu vô parecia bem feliz por estar  nos visitando, na São Simão das Cachoeiras. Se ele estava alegre,  eu me sentia "levitando" de tão feliz.

Naquele momento, preso  àquela agradável  sensação , repetia comigo mesmo: "Aquele é meu avô.  Eu tenho um avô! Que bom! E ele está ali embaixo , sentado naquela pedra!"

Foi um dia tomado de regozijo e contemplação. Na minha euforia, queria poder atrelar o sol à alegria dominante, para impedi-lo de se projetar no ocaso. O "até logo" do rei dos astros poria fim a todo  aquele encantamento, e eu desejava fosse sem fim.

Alheio aos meus anseios, mesmo preso ao fascínio magnetizante das quedas d'água e o vapor espumante, a grande Estrela  deu lugar ao crepúsculo e se embrenhou na escuridão da noite. De nada me valeria protestar; é uma lei do universo. Mas, aquele distante dia, enquanto eu viver, permanecerá entre as memórias mais festivas e sublimes da minha vida.


Rubens de Oliveira Machado - Cel PM

Acadêmico Fundadora da Cadeira nº53


quinta-feira, 1 de agosto de 2024

PENSANDO NA FELICIDADE

Fico pensando na felicidade suprema dos inimigos do Ocidente. Daqueles cujo propósito de vida é apenas subverter e destruir tudo aquilo que eles não conseguem ter. 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

O DEMIURGO

Havia uma densa escuridão encobrindo todo lugar, absorvendo até mesmo as sombras mais persistentes. Mãos quase humanas tateavam à procura de algum alento e raramente conseguiam satisfazer suas expectativas sensuais. 

segunda-feira, 8 de julho de 2024

QUARTO SOLIDÃO

Cheguei muito atrasado para o encontro. Nos cumprimentamos com um abraço e beijos no rosto. Era uma reunião importante, mas não conseguia me concentrar no que estava sendo dito. Olhava e via apenas os lábios se mexendo e eu concordava ora com um gesto, ora com algum monossílabo. 

sábado, 22 de junho de 2024

MÁSCARAS

Refleti durante horas sobre qual seria a forma mais adequada de me apresentar ao mundo lá fora. Enquanto isso, uma tristeza persistente e sonora tocava uma melodia chata nos meus ouvidos. Devo admitir que alguns trechos daquela melodia soavam agradáveis, provavelmente devido à minha natureza solitária.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

PORTAL

Devo ter atravessado algum tipo de portal. Não me lembro de haver um lugar como esse na minha Cidade. Não faço nem ideia do que significam essas letras e nem para onde elas apontam. De qualquer forma, as pessoas continuam fora do meu alcance. Estendo as mãos, tateando as sombras em busca de algo indefinido. 

quarta-feira, 19 de junho de 2024

CICLOS

Um dia eu cheguei e no outro estou indo embora. 

São ciclos que se iniciam e ciclos que se encerram.

Silêncio destilado

Escombros: Sobras de vidas Sonhos Solidão É preciso dizer mais? Entre uma dose e outra reviro restos. Garrafas por companhia. Esqueço dores,...