No coração do interior brasileiro, onde o asfalto some e o chão vermelho de terra grita por socorro, a saúde vira espetáculo. Não é hospital com alas cheias de remédios e médicos de plantão, não. É a ambulancioterapia, esse elixir milagroso ofertado por deputados federais, estaduais e até vereadores miúdos, que chegam em comitivas barulhentas, sirenes ligadas, prometendo salvação sobre rodas.
Imagine a cena em Itapema dos Brejos ou qualquer lugarejo esquecido: o político desce do jatinho fretado, microfones na mão, e inaugura a ambulância novinha, pintada com as cores do partido. “Olha aí, meu povo! Essa belezura leva o doente pro Hospital de Urgência onde existe recurso, num piscar de olhos!”, grita ele, enquanto a multidão aplaude, esquecendo que o posto de saúde local ainda tem fila de meses pra um raio-X. A ambulância roda por uns dias, vira selfie de campanha, e logo some na garagem da prefeitura – ou pior, é “emprestada” pra levar o prefeito em romaria. Ambulancioterapia pura: trata o sintoma com alarde, mas ignora a doença crônica da falta de estrutura.
E não para por aí. Vem a farra dos ônibus da saúde, esses colossos rodoviários que devoram milhões do erário. Chegam lotados de exames grátis: ultrassom, mamografia, dentista sorridente. “Partiu pro mutirão!”, anunciam os outdoors. O deputado estadual, suado de tanto discursar, embarca meia cidade num ônibus climatizado que ruma pra capital ou até mesmo na cidade local. Lá, num ginásio alugado, o povo faz fila pra um check-up de fim de semana. Volta com um papelzinho na mão – “Volte em 30 dias” – e o político já some, deixando o doente na mesma poeira de antes. É saúde de porteira fechada: abre só pra foto, fecha pro resto do ano.
Essa ciranda brasileira, de Itapema dos Brejos a Cantão das Onças, passando por Belos Lagos e Montes Limpos, é o retrato fiel da política do pão e circo 2.0. Deputados federais mandam verbas federais pra ambulâncias que nunca saem do perímetro eleitoral; estaduais articulam emendas pra ônibus que param na eleição seguinte; vereadores, coitados, pedem carona na farra pra posar de heróis locais. Tudo isso enquanto o SAMU estadual engasga em falta de combustível, e o hospital municipal vira depósito de almas penadas.
No fim, o brasileiro interiorano ri pra não chorar. Sabe que a ambulância não cura o câncer da negligência, e o ônibus da saúde não pavimenta estradas pro futuro. É farra de sirene e diesel, mas o verdadeiro remédio – investimento em gente, em UPAs permanentes, em médicos que fiquem – continua engavetado na gaveta dos interesses. Quem dera um dia a política trocasse o holofote pelo bisturi de verdade.
Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15
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