sexta-feira, 1 de maio de 2026

Crônica: O Eco no Fundo do Abismo: O Poço das Vaidades Eleitorais

Dizem que o poder não muda as pessoas, apenas as revela. Mas, na política, essa revelação costuma vir acompanhada de um fenômeno óptico curioso: quanto mais alto o sujeito sobe no palanque, mais profunda se torna a queda no poço da própria vaidade.

O Batismo do Espelho

Tudo começa com um "chamado". Raramente alguém admite que quer o poder pelo prazer de mandar; o roteiro exige a narrativa do sacrifício. "O povo me pede", dizem, enquanto ajustam a gravata ou o lenço diante do espelho. Esse é o primeiro sintoma da distorção: a confusão entre o "eu" e o "nós".

Aos poucos, o candidato deixa de ser um cidadão comum para se tornar um monumento a si mesmo. O aperto de mão, que antes era um gesto de conexão, vira uma ferramenta de marketing. O olhar, que deveria buscar as carências da rua, passa a buscar apenas a lente da câmera.

A Alquimia dos Valores

No fundo desse poço, ocorre uma transmutação perigosa de valores fundamentais. A ética, que deveria ser o norte, é substituída pela conveniência. A verdade — aquela coisa rígida e teimosa — torna-se maleável, uma "narrativa" a ser moldada conforme o sabor das pesquisas de opinião.

Nesse ecossistema de egos inflamados, a humildade é vista como fraqueza e a escuta como perda de tempo. O político que se lança no poço das vaidades passa a acreditar na própria hagiografia escrita por seus assessores. Ele não quer mais servir à sociedade; ele quer que a sociedade seja o cenário onde ele brilha sozinho.

A Solidariedade vira assistencialismo estratégico.

A Justiça vira o silenciamento dos opositores.

O Diálogo vira um monólogo interrompido por aplausos ensaiados.

O Reflexo Turvo da Sociedade

O mais trágico não é apenas a transformação do indivíduo, mas como isso distorce a percepção coletiva. Quando a vaidade se torna a moeda corrente da política, a sociedade passa a aceitar o espetáculo no lugar da gestão.

Começamos a admirar o "salvador da pátria" que fala grosso, ignorando o gestor silencioso que resolve o problema do saneamento básico. Valorizamos a lacração no post de rede social em detrimento do projeto de lei bem fundamentado. A vaidade do político encontra eco na carência de um povo que, muitas vezes, prefere o brilho do ouro falso à solidez do caráter.

O Fundo do Poço

O problema de mergulhar no poço das vaidades é que, lá no fundo, o ar é rarefeito. O político isola-se em uma bolha de "sim-senhores" e perde o contato com a realidade nua e crua das calçadas.

Quando os valores fundamentais — como a honestidade intelectual e a empatia real — são sacrificados no altar da autocelebração, o que resta é um castelo de cartas. E, como toda estrutura baseada no ego, basta um sopro da história para que ela desmorone, deixando para trás apenas o rastro de uma sociedade que esqueceu como é ser representada por seres humanos, e não por estátuas de si mesmos.

No fim das contas, o maior desafio da política moderna não é vencer as eleições, mas conseguir atravessá-las sem se perder no caminho entre o palanque e o espelho.

Edno Paula Ribeiro – Cad. 15 – AGL-MB

Crônica: O espelho e a máscara, uma confissão "Umirde".


Dizia o mofado (mas certeiro) personagem de Al Pacino que a vaidade era seu pecado predileto. Assino embaixo, com caneta tinteiro e uma caligrafia impecável que, secretamente, espero que você elogie. A vaidade é o pecado "limpo". Não tem a lambança da gula, nem o cansaço da ira; é um pecado que se veste bem, usa perfume caro e gosta de ser notado, mesmo quando finge que está apenas "de passagem".

Mas eu tenho um trunfo, uma espécie de freio de mão moral que me impede de virar um pavão insuportável: eu sou "umirde".

A Engenharia da Humildade

Ser "umirde" — assim, com essa grafia que já carrega o deboche da autoconsciência — é uma arte refinada. É o que me permite postar uma foto incrível e legendar com uma frase profunda sobre "a simplicidade da vida". É a capacidade de receber um elogio estrondoso e responder com um "Imagina, são seus olhos", enquanto, por dentro, minha alma faz uma dancinha da vitória digna de final de campeonato.
A sorte de ser "umirde" é que isso me dá o salvo-conduto para ser vaidoso sem perder a elegância. A vaidade bruta, aquela sem filtro, é barulhenta. Já a vaidade "umirde" é estratégica. Ela não exige o holofote; ela apenas se posiciona onde a luz bate melhor, "por puro acaso".

O paradoxal prazer de não ser nada

O ápice da minha "umirdade" acontece quando consigo ser o mais simples da mesa. Há uma vaidade imensa em ser a pessoa menos pretensiosa do recinto. "Vejam como eu sou acessível!", grita o meu ego, enquanto aceito um café em copo de plástico com a mesma dignidade de quem degusta um vinho premiado.

Ser "umirde" me salva de ser um vilão de novela. Se eu fosse apenas vaidoso, seria o tipo que conta as vantagens em voz alta. Como sou "umirde", eu espero que você descubra as minhas vantagens sozinho, para que eu possa negar todas elas com um sorriso modesto.

"A verdadeira modéstia é, no fundo, a forma mais sofisticada de vaidade: ela força o outro a nos elogiar duas vezes."

O veredito do espelho

No fim das contas, minha sorte é que a "umirdade" me mantém humano. Ela é o verniz que esconde o meu desejo infantil de ser o centro do universo. Se a vaidade é o meu pecado predileto, a "omirdade" é o meu melhor disfarce.
Sigo assim: pecando com estilo, mas sempre pedindo desculpas pelo incômodo. Afinal, não há nada mais magnânimo do que ser alguém incrível e ter a "omirdade" de fingir que não sabe disso.

E se você achou este texto brilhante, por favor, me diga. Eu vou fingir que não me importo, mas vou guardar o seu comentário no bolso, como quem guarda um troféu de ouro que, "por sorte", acabou caindo na minha mão.

Edno Paula Ribeiro - Cad. 15 – AGL-MB

Autorretrato


Narciso,
Não me alcanço.
Hoje sei quem não sou.

Não sou areia da ampulheta,
haicai perfeito,
nota no diapasão.

Recuso a contagem do tempo,
a forma ideal,
a perfeição.
Não sou o padrão,
sem vibração.

Culto da perfeição.
Fetiche do ser.

Vibro fora.
Sou a antítese.
Relógio atrasado.
Perene desarmonia.
Sou a descriação.
Divino Alves de Oliveira - Coronel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20

Retocar

tinta ressecada,
mágoa impregnada.
repintar?

entre pincéis,
silêncio.

da paleta,
escorrem
tintas,
lembranças?

na tela,
lágrimas,
aguarrás.

restauro.

Divino Alves de Oliveira - Coronel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20

Soneto à Persefone e Hades

Nos reinos sombrios, onde a sombra habita,
Persefone dança, flor que nunca se apaga,
A luz do verão, em seu ser, se agita,
Mas ao outono, seu encanto se entrega.

Hades, senhor das almas, em seu trono,
Recebe a rainha com amor profundo,
No mundo subterrâneo, o amor é o dono,
E a vida e a morte se entrelaçam no fundo.



No ciclo eterno, giram as horas,
Entre flores e sombras, a vida se tece,
Persefone brilha, mesmo em suas demoras.

José morre no dia-a-dia, em sua dor,
Mas renasce nesta primavera, ouvindo Maysa, em amor.

José Lemos da Silva Filho - Coronel PMGO
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 01

domingo, 26 de abril de 2026

Crônica: O Eco no Fundo do Abismo: O Poço das Vaidades Eleitorais


Dizem que o poder não muda as pessoas, apenas as revela. Mas, na política, essa revelação costuma vir acompanhada de um fenômeno óptico curioso: quanto mais alto o sujeito sobe no palanque, mais profunda se torna a queda no poço da própria vaidade.

O Batismo do Espelho

Tudo começa com um "chamado". Raramente alguém admite que quer o poder pelo prazer de mandar; o roteiro exige a narrativa do sacrifício. "O povo me pede", dizem, enquanto ajustam a gravata ou o lenço diante do espelho. Esse é o primeiro sintoma da distorção: a confusão entre o "eu" e o "nós".

Aos poucos, o candidato deixa de ser um cidadão comum para se tornar um monumento a si mesmo. O aperto de mão, que antes era um gesto de conexão, vira uma ferramenta de marketing. O olhar, que deveria buscar as carências da rua, passa a buscar apenas a lente da câmera.

A Alquimia dos Valores

No fundo desse poço, ocorre uma transmutação perigosa de valores fundamentais. A ética, que deveria ser o norte, é substituída pela conveniência. A verdade — aquela coisa rígida e teimosa — torna-se maleável, uma "narrativa" a ser moldada conforme o sabor das pesquisas de opinião.

Nesse ecossistema de egos inflamados, a humildade é vista como fraqueza e a escuta como perda de tempo. O político que se lança no poço das vaidades passa a acreditar na própria hagiografia escrita por seus assessores. Ele não quer mais servir à sociedade; ele quer que a sociedade seja o cenário onde ele brilha sozinho.

  • A Solidariedade vira assistencialismo estratégico.
  • A Justiça vira o silenciamento dos opositores.
  • O Diálogo vira um monólogo interrompido por aplausos ensaiados.

O Reflexo Turvo da Sociedade

O mais trágico não é apenas a transformação do indivíduo, mas como isso distorce a percepção coletiva. Quando a vaidade se torna a moeda corrente da política, a sociedade passa a aceitar o espetáculo no lugar da gestão.

Começamos a admirar o "salvador da pátria" que fala grosso, ignorando o gestor silencioso que resolve o problema do saneamento básico. Valorizamos a lacração no post de rede social em detrimento do projeto de lei bem fundamentado. A vaidade do político encontra eco na carência de um povo que, muitas vezes, prefere o brilho do ouro falso à solidez do caráter.

O Fundo do Poço

O problema de mergulhar no poço das vaidades é que, lá no fundo, o ar é rarefeito. O político isola-se em uma bolha de "sim-senhores" e perde o contato com a realidade nua e crua das calçadas.

Quando os valores fundamentais — como a honestidade intelectual e a empatia real — são sacrificados no altar da autocelebração, o que resta é um castelo de cartas. E, como toda estrutura baseada no ego, basta um sopro da história para que ela desmorone, deixando para trás apenas o rastro de uma sociedade que esqueceu como é ser representada por seres humanos, e não por estátuas de si mesmos.

No fim das contas, o maior desafio da política moderna não é vencer as eleições, mas conseguir atravessá-las sem se perder no caminho entre o palanque e o espelho.

 Edno Paula Ribeiro – Cad. 15 – AGL-MB 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Entre Conquistas e Conflitos: o Lugar das Mulheres na Atualidade


A ampliação de direitos não pode significar o apagamento de trajetórias históricas

As mulheres que lutaram para conquistar espaço e garantir seus direitos, ao longo da história, hoje se veem diante de novos e complexos debates sobre identidade e representatividade. Em muitos contextos, há a percepção de que esse espaço vem sendo tensionado pela inclusão de mulheres trans — pessoas que nasceram biologicamente do sexo masculino, mas que se identificam como mulheres.

É fundamental afirmar, antes de tudo, o respeito ao direito de cada indivíduo de viver esta vida conforme suas convicções e identidade. As mulheres trans têm o direito legítimo de lutar por reconhecimento, dignidade e inclusão. Trata-se de uma pauta relevante dentro do campo dos direitos humanos. No entanto, essa luta precisa ocorrer a partir de sua própria identidade, enquanto mulheres trans, e não pela substituição ou apropriação dos espaços historicamente conquistados pelas mulheres.

Ao longo dos séculos, as mulheres travaram batalhas fundamentais por direitos básicos. Desde o movimento sufragista, que garantiu o direito ao voto, passando pela conquista do acesso à educação, ao mercado de trabalho, à igualdade jurídica e à proteção contra a violência, até os avanços mais recentes em direitos reprodutivos e participação política. Essas conquistas foram moldadas por experiências específicas — sociais, culturais e também biológicas — como a menstruação, a gestação e as desigualdades estruturais impostas historicamente.

Por isso, a ampliação de direitos deve caminhar no sentido da inclusão, sem que haja a percepção de usurpação ou descaracterização dessas conquistas. Cada grupo possui legitimidade para reivindicar seus direitos, mas essa construção precisa respeitar os limites, as especificidades e a trajetória histórica de cada categoria.

Termos como “pessoa que gesta” ou “mulher cis” surgem como tentativas de inclusão e reconhecimento da diversidade. No entanto, para muitos, essas nomenclaturas geram desconforto ao relativizar a identidade feminina tradicional. A inclusão não precisa ocorrer por meio do apagamento, mas sim pelo reconhecimento das diferenças.

Diante disso, quando se trata de espaços institucionais — como uma Comissão da Mulher —, é legítimo questionar quais critérios definem sua composição. Se a legislação estabelece que tais espaços devem ser ocupados por mulheres, torna-se necessário um debate claro, objetivo e jurídico sobre o significado desse termo. Caso se entenda pela ampliação desse conceito, o caminho mais coerente seria a atualização da própria legislação, de modo transparente e alinhado às transformações sociais.

Alternativamente, pode-se considerar a criação de espaços próprios de representação para diferentes identidades de gênero e orientações sexuais, garantindo visibilidade e voz sem gerar conflitos de pertencimento ou sobreposição de direitos.

O reconhecimento das mulheres trans não deve implicar na diluição da identidade feminina construída historicamente pelas mulheres. Da mesma forma, a defesa dos direitos humanos deve ser ampla e inclusiva, sem desconsiderar ou enfraquecer conquistas já consolidadas.

O desafio contemporâneo não é excluir, mas equilibrar. É reconhecer que diferentes grupos possuem demandas legítimas e que a convivência social se fortalece quando há clareza, respeito mútuo e justiça. Garantir espaço, voz e direitos a todos não deve significar a anulação da história de ninguém, mas sim a construção de uma sociedade onde as diferenças coexistam com dignidade e responsabilidade.

E que, ao fim de tantas vozes que se erguem, não se cale a memória de quem abriu caminhos nem se negue a existência de quem ainda os busca.

Que o direito floresça sem arrancar raízes, e que a justiça não seja feita de substituições, mas de convivências.

Porque uma história não precisa apagar a outra para existir — basta que ambas encontrem, com respeito, o seu lugar no tempo e na vida.


18 de março de 2026
Helena Aparecida Damásio - Coronel PM
Acadêmica Fundadora da Cadeira  nº  58

Crônica: O Eco no Fundo do Abismo: O Poço das Vaidades Eleitorais

Dizem que o poder não muda as pessoas, apenas as revela. Mas, na política, essa revelação costuma vir acompanhada de um fenômeno óptico curi...