segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Os festejos natalinos e ano novo, em tempos de extremismos políticos

Natal em chamas políticas

Nas ruas de Cantão das Onças ou Itapema dos Brejos, onde o sereno goiano ainda resiste ao calor das paixões ideológicas, o Natal chega como um mensageiro teimoso de paz. As luzes piscam nas fachadas das casas humildes, enfeites de palha e papel crepom pendurados com mãos calejadas de trabalho público. Famílias se reúnem à mesa, o cheiro de peru assado misturando-se ao de rabanadas, e por um instante, o mundo lá fora parece distante. "Paz na terra aos homens de boa vontade", entoa o padre na missa do galo, ecoando Mateus em meio a velas tremulantes. Mas boa vontade? Em tempos de extremismos, essa frase soa como ironia.

Os extremismos políticos, esses ventos furiosos que varrem o Brasil de norte a sul, infiltram-se até nas ceias. No WhatsApp, tios bolsonaristas trocam memes furiosos contra "comunistas petistas", enquanto primos lulistas respondem com áudios inflamados sobre "golpistas fascistas". A televisão, ao fundo, alterna entre o Papai Noel comercial e debates raivosos, onde analistas gritam uns sobre os outros como cães latindo para sombras. O extremismo não poupa nem o Menino Jesus: uns o reclamam como mascote da direita moralista, outros como ícone da esquerda igualitária. E assim, o presépio vira ringue, o presépio de Belém transformado em Brasília de ódios.

A passagem de ano agrava o drama. Fogos estouram no céu de Goiás, prometendo renovação, mas o calendário novo carrega as mesmas divisões. Contamos regressivamente – dez, nove, oito – e brindamos com espumante barato, desejando prosperidade. No entanto, o extremismo sussurra: "Só para os nossos". Redes sociais explodem com promessas de "limpeza geral" em 2026, uns sonhando com interventores, outros com reformas radicais. Esquecemos que o ano novo não apaga cicatrizes; ele apenas veste as velhas feridas com confetes. Em cidades como as nossas, onde a política local ainda pulsa em vereanças e prefeituras, o extremismo se alastra como seca, polarizando até as quadrilhas juninas do futuro.

Mas há esperança no ar natalino, fina como o orvalho matinal. Imagine se, entre o peru e o panetone, ousássemos silenciar os celulares? Se, na virada, trocássemos gritos por abraços, memes por memórias? Os festejos nos lembram que o humano precede o ideológico. Em tempos de extremismos, o Natal e o Ano Novo não são feriados vazios; são convites à trégua. Que os fogos iluminem não vitórias partidárias, mas a possibilidade de diálogo. Afinal, na mesa da vida, cabemos todos – ou pelo menos deveríamos tentar.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

O Silêncio das Cores


Quando o sol nasce e o dia não desperta,
E o cinza cobre o que antes tinha cor,
A alma vaga, uma porta entreaberta,
Onde o frio entra e congela o calor.

O relógio insiste em seu tique-taque,
Mas o tempo parece não caminhar,
Somos peças soltas num tabuleiro de xeque,
Sem rei, sem rainha, sem lugar para estar.

Os sorrisos tornam-se gestos treinados,
Máscaras vestidas por pura obrigação,
Caminhamos em trilhos, passos pesados,
No piloto automático da solidão.

O “porquê” se cala, o “para quê” se esconde,
E as metas de ontem viram pó na estante.
A voz pergunta, mas ninguém responde,
Tudo é vasto, mas nada é o bastante.

Porém, no fundo desse poço mudo,
Onde a bússola gira sem apontar o norte,
Talvez perder o sentido de tudo
Seja o jeito da vida nos fazer mais forte.

Pois é no quadro em branco, sem pintura,
Que se pode criar um desenho novo.
O vazio assusta, traz amargura,
Mas é o espaço limpo para nascer de novo.

Respire fundo, deixe o tempo ser nada,
Não busque respostas na pressa ou na dor.
Às vezes, a pausa é a própria estrada,
Até que a vida, sozinha, reencontre a cor.
Edno Paula Ribeiro - Major PM 
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

RECONSTRUÇÃO


Catei pedaços de mim.
Espalhados
pelos cantos
onde andei.

Vestígios.
Vestes rasgadas.
Versões minhas
que ficaram pelo chão.

Cada qual com sua dor.
Dor que lateja.
Dor que cala.
Dor que aprende a respirar sozinha.

E eu…
juntando cacos
com mãos trêmulas
e coragem nascente.

Quando os reuni,
um a um,
entre lágrimas e lucidez,
descobri:

Não eram ruínas.
Eram alicerces
Inteiros…
não apesar das chagas,
mas por causa delas.

Eu me permiti dilacerar.
Eu.
Rasguei sonhos não sonhados.
Enterrei projetos não realizados.

Silenciei desejos que pediam voo.
Fui me desfragmentando
ao longo da estrada,
feito vidro fino
sob passos apressados.

E quando pensei
ter chegado ao fim…
Era apenas sombra
diante do cume.

Espectadora
da minha própria existência.
Um espectro vazio
ansiando por
sol,
chuva,
vento,
vida.

Fiquei anos
sem olhar no espelho.
Anos.
Temia o vazio
que eu mesma alimentava.

Mas hoje,
eu sustento o olhar.
Amo meu reflexo.
Porque ele me desafia.

Ele me chama.
Ele me lembra
que enquanto houver fôlego,
eu não retrocedo.

Enquanto o peito pulsa,
eu avanço.
Não é tarde.
Nunca foi.

Ainda posso viver.
Viver de dentro para fora.
Ouvir meu coração pulsar
não por sobrevivência,
mas por paz.

Paz que não implora.
Paz que não se esconde.
Paz inteira.
Paz viva.

Helena Aparecida Damásio - Coronel PM
Acadêmica Fundadora da Cadeira nº 58

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Temos uma dívida com Bernardo Élis


Quero usar este espaço na revista Leitura Estratégica para, eventualmente, falarmos da nossa goianidade, cultura e formação da nossa sociedade. Hoje, vou abrir com um ícone da literatura brasileira, nosso Bernardo Élis, que não foi apenas o maior escritor goiano do século XX, foi, sobretudo, o primeiro a revelar Goiás ao Brasil sem pedir licença e sem pedir desculpas. 

A obra de Bernardo Élis não buscou embelezar o sertão, mas expô-lo, sem ser o sertão fictício, heroico ou folclórico, mas o sertão verdadeiro, bruto, duro, violento, desigual e humano. Aliás, em nossas conversas com avós e outros antepassados, podemos sentir o cheiro desta literatura, que parece distante, mas tem traços da nossa vida e história. 

Contando um pouco dele, Bernardo nasceu, em 1915, em Corumbá de Goiás, e faz parte de uma geração que viveu a transição mais radical da história do Estado. Ele presenciou o fim do ciclo colonial tardio (pois o começo do século passado ainda tinha resquícios do Brasil antigo em nossa sociedade, apesar de já estarmos na Era Republicana), a decadência da antiga capital e o nascimento de Goiânia, inaugurada como promessa de modernidade em meio a um território. 

Viveu um Goiás que deixava de ser fim de mundo para se tornar passagem, estrada, plantação e boiada – e começava a despertar um modelo econômico que se firma de meados do século para frente. Depois, testemunhou a construção de Brasília, em 1960, que deslocaria definitivamente o eixo político e simbólico da região. Goiás entra no mapa –, meio que de carona. 

A literatura de Bernardo nasce nessa fratura histórica. Do Goiás velho (e não estou falando da cidade) para o Goiás novo. Enquanto o discurso oficial falava em progresso, integração e futuro, Bernardo Élis registrava o que permanecia intacto: o coronelismo, o abandono, a brutalidade cotidiana e a solidão humana. 

Em seu livro mais emblemático, “O Tronco”, de 1956, o autor marca Goiás na literatura nacional, com contundência, mostra o violento interior brasileiro. Merece a atenção como livro fundamental para ser goiano. Não é um episódio local ou regional. É a formação da sociedade brasileira na veia, daquele mundo rural dominante e o poder político, o Brasil que se tinha na forma crua e nua – em letras goianas que ganharam o mundo da literatura.  

Como ele não escreveu para agradar os poderosos, agradou o mundo da literatura. Ele escreveu para testemunhar e transcendeu Goiás. Gosto de duas definições, não sei onde li, que, em Bernardo Élis, “cada frase carrega o peso do silêncio que dominava a vida no interior”, e que ele está na galeria dos grandes intérpretes do Brasil, sentado ao lado de Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa. Eles compreenderam e traduziram o interior – o núcleo formador do Brasil.

Bernardo foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1975, um marco histórico. O autor se tornou o primeiro e único goiano a ocupar uma cadeira na instituição que simboliza o reconhecimento máximo da literatura nacional. Não foi uma conquista pessoal, foi a admissão formal de que o Brasil também se escreve a partir do Centro-Oeste. 

Bernado e sua escrita, seca, econômica e precisa, são mais citados que lidos – infelizmente. Coloquem em sua lista de leitura ou releituras, em 2026, com urgência, O Tronco. Não é um convite, é uma intimação – precisamos pagar essa dívida com Bernardo Élis. Vamos fazer esse acordo?


Dr Juscimar Pinto Ribeiro
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 41
Advogado especialista em Direito Administrativo e Direito Constitucional
Fonte: Revista Leitura Estratégica


 

Alquimia da sedução


Verdade,
mentira?
Qual?
A minha
ou a sua?

A cada insight,
uma versão.
Realidades que invento.
A cada ouvido,
uma melodia.

Flauta de Pan:
encantamento,
sedução,
doce som
a gerar ilusões.
Partitura de tinta e bile.

Visual?
Auditivo?
Sinestésico?
Qual o seu gosto?

Na flecha lançada,
a gota certa do veneno.
Na minha ilusão,
espelho seus sonhos.

Verdade ou mentira?
Perfeita armadilha.
Pouco importa.
Feitiço lançado:
Música aos seus ouvidos.
Alquimia da sedução.

Divino Alves de Oliveira - Coronel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20


Véu do palco

Na entropia da vida
descerram-se cortinas.
Numa constante encenação,
múltiplos palcos.
Véus de ilusão
a revelar e esconder
realidades menos amenas.
Tudo é teatro.

Numa coreografia do cotidiano,
ao mesmo tempo,
sou ator e roteirista.
Filtro o abismo.
Fabrico ilusões:
sofrimento em drama,
perda em poesia,
tédio em rotina.

Em cada máscara,
consciências diferentes,
um mundo de sonhos:
plateia,
trama,
ribalta,
coxia.

Que peça enceno agora?
Que roteiros escrevi e escreverei?

A cada roteiro,
um novo véu
a tornar menos entrópica
a realidade que insiste em se desvelar.

Divino Alves de Oliveira - Coronel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20



 

A Mó


Aos ouvidos,
pedras em sincronia.
O canto de sereia,
seduz almas em queda.
Retórica do vazio.

Diante dos olhos,
o mundo se desnuda.
Bocas repletas de sofismos.
Venenos adocicados.
Ópio social.

Nos ombros,
o eu coletivo,
apegos,
desejos do ter,
pesando.

Na boca, a bile arde.
Na garganta,
gosto de fel.

Ralo gravitacional.
Força a tudo puxar.
Pedras de moinho a girar.

No centro do abismo,
idolatria .
Mundo que se fere
não se cura.

Náusea espiritual.
Desfaço-me em vômitos.
Asco.

Em meio às agruras do tempo,
a mó continua,
a triturar almas e sonhos.

Divino Alves de Oliveira
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20
 

Os festejos natalinos e ano novo, em tempos de extremismos políticos

Natal em chamas políticas Nas ruas de Cantão das Onças ou Itapema dos Brejos, onde o sereno goiano ainda resiste ao calor das paixões ideoló...