Inspirado no artigo da Revista TERRITORIAL
Cidade de Goiás, v. 7, n. 1, p. 30-44, 2018.
Título: A IMPOPULARIDADE DO MUSEU DA POLÍCIA MILITAR NA CIDADE DE GOIÁS/GO: MOTIVOS E PERSPECTIVAS
Busquei este tema hoje por preocupar-me com o histórico da PMGO, que muitas vezes fica relegado aos domínios miúdos da caserna. Hoje, nem mesmo os jovens policiais conhecem nossas lutas, conquistas e origens.
Neste importante artigo da Revista TERRITORIAL, vi o descaso — não do artigo em si, mas de quem o respaldou internamente — ao deixar de relatar o impulso mater deste importante acervo cultural, não apenas para a instituição, mas para toda a comunidade goiana.
Algumas ações nascem miúdas e, agregadas a outros visionários, passam a ter maior amplitude e relevância. O descaso interno em historiar e preservar memórias deixa como legado a ideia de que apenas o presente é primordial, esquecendo-se de cada conquista que o sustenta.
Ninguém institui ações sem o entendimento dos fatos que as compõem. O respeito à instituição começa pelo respeito às tradições e aos registros de sua trajetória. Não é uma nomenclatura equivocada que sustenta narrativas que, por mais bem-intencionadas, relegam fatos históricos, criando cenários inverídicos e aviltando o pioneirismo e os registros relevantes para a manutenção da identidade institucional.
Nesta reflexão sobre a ausência de histórias na importante trajetória da instituição — desde o primeiro embrião do sistema de segurança pública no Estado — peço espaço para pontuar o que apreciei neste artigo:
Vejo que buscou dados relevantes sobre o nosso museu e apontou caminhos para melhorias, a fim de que sua funcionalidade se torne de conhecimento geral da sociedade. Eu apenas trocaria, no título, a palavra “Impopularidade” por “Invisibilidade”.
Quem forneceu os primeiros relatos sobre este museu, não sei dizer. Talvez por falta de conhecimento, por registros internos da APM não catalogados, ou por desconsiderar como irrelevante quem realmente deu início ao primeiro e tímido embrião deste importante espaço — também, à época, desconsiderado pela própria instituição.
Eis que este museu invisível já existia: em acervos dispersos, por vezes abandonados, mas sempre presentes — nas fotos guardadas na antiga seção da PM5 da APM, nos quadros das galerias dos quartéis, no centro acadêmico, nos equipamentos arquivados no almoxarifado, nas roupas de gala, espadins, fuzis e nas histórias contadas sobre participações relevantes em momentos que promoveram estabilidade social, em guerras, embates com indígenas e tantos outros episódios pouco conhecidos, tanto pela tropa quanto pela comunidade.
Aos meus olhos, o museu já estava ali — apenas invisível.
Vindo para minha casa, na cidade de Goiás, abri o guarda-roupa onde meu pai, apaixonado pela instituição, reservava uma porta para pendurar antigos fardamentos de sua época na caserna. Pedi a ele, e, mesmo contrariado, cedeu-me quatro conjuntos, dizendo: “daqui a três anos vão jogar no lixo”.
Chamei um amigo aspirante, formado comigo no CFO — Celso Gonçalves Borges — para pleitearmos um espaço na Academia. Ali começaríamos nosso diminuto museu, voltado inicialmente ao público interno e, quem sabe um dia, expandido para um espaço maior e mais relevante.
Fiz um pequeno ofício ao Subcomandante, Major Noronha, que levou à apreciação do Tenente-Coronel Hercílio. Para nossa surpresa, foi-nos cedido um espaço no Corpo da Guarda, à direita de quem entra na APM.
O almoxarifado contribuiu com coletes, fardamentos de gala, armas antigas e espadins. Montamos murais de insígnias militares. Tudo foi assentado em livro tombo, na esperança de dar corpo a novos registros e ver o museu crescer.
Não me recordo se houve publicação em boletim interno. Mas aquele museu já trazia ares de início — de contar e eternizar histórias, de inspirar alunos e oficiais em formação, de fomentar produções acadêmicas e fortalecer a identidade institucional.
Com o passar do tempo, todo idealizador se alegra ao ver que o embrião lançado ganha forma. Cerca de 16 ou 17 anos depois, o pequeno museu de 1991 foi apresentado em solenidade na APM, com discursos, banda e o devido reconhecimento aos organizadores.
Estive presente. Fiquei feliz ao ver que muitas das peças coletadas por mim e pelo então aspirante Celso ainda estavam ali.
Uma professora de história, convidada para estruturar o museu, aproximou-se de mim e disse, com um sorriso:
— Você faz parte desta história, não é? Eu não sabia.
Agradeci. Em seguida, um sargento comentou que, ao ouvir a conversa, fez questão de dizer a ela:
— Muitas dessas peças são do museu criado pela Major Damásio e pelo Capitão Celso.
Não vejo isso como omissão individual, mas como uma espécie de amnésia institucional — aquela que frequentemente deixa de registrar quem deu forma a iniciativas importantes.
Cito, por exemplo: o Coronel Baltazar, primeiro comandante do Colégio Militar; o Coronel Jorge Sobrinho, na implantação do policiamento aéreo; os criadores do PROERD; o Coronel Mota, com o policiamento tático motorizado — entre tantos outros que precisam ter seus feitos preservados.
Essa memória não deve ser construída com vaidade, mas com justiça.
Com orgulho, como gestora de uma escola militar, levei alunos à cidade de Goiás para conhecer museus e monumentos, incluindo o quartel da PMGO — marco do primeiro núcleo de segurança pública do Estado.
Ali, o museu deixou de ser apenas interno e tornou-se universal, aberto à comunidade e a visitantes de todo o país. Os fardamentos cedidos por meu pai ainda estavam expostos, agora integrados a outros acervos importantes.
No entanto, senti falta de contextualização: datas, autores, narrativas mais consistentes. Muitas explicações eram superficiais, revelando preparo ainda insuficiente dos guias.
Sobre a participação na Guerra do Paraguai, por exemplo, faltava clareza: à época, não existia ainda a Polícia Militar como hoje, mas sim corpos policiais provinciais, guardas nacionais e forças auxiliares, que atuavam tanto na ordem interna quanto no apoio militar.
Helena Aparecida Damásio - Coronel PM
Acadêmica Fundadora da Cadeira nº 58
Esse período foi fundamental para Goiás, trazendo:
— fortalecimento institucional das forças policiais;
— maior militarização da segurança pública;
— experiência de combate;
— contribuição para a formação da futura PMGO.
Mesmo com tantos fatos relevantes, as narrativas apresentadas ainda carecem de profundidade.
Somam-se a isso temas pouco explorados, como:
— conflitos com indígenas na década de 1980;
— a história da Banda de Música da PMGO, tão presente nas manifestações culturais e religiosas da cidade.
Hoje, com o abandono da reforma da unidade centenária, o acervo encontra-se acumulado e esquecido em um espaço provisório que se tornou permanente.
A antiga instalação, por sua vez, caminha para a ruína — sinalizando omissão institucional, do IPHAN e da gestão estadual.
Corremos o risco de perder não apenas um prédio histórico, mas um patrimônio de memória.
E o que resta, então, pode se tornar apenas um amontoado de entulho — símbolo de desrespeito não só à instituição, mas à própria comunidade que ela serve.
Helena Aparecida Damásio - Coronel PM
Acadêmica Fundadora da Cadeira nº 58



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