terça-feira, 17 de março de 2026

Antes de Existir, Já Resistia


A história não contada do Museu da PMGO e o risco do apagamento da memória institucional.

Inspirado no artigo da Revista TERRITORIAL
Cidade de Goiás, v. 7, n. 1, p. 30-44, 2018.

Título: A IMPOPULARIDADE DO MUSEU DA POLÍCIA MILITAR NA CIDADE DE GOIÁS/GO: MOTIVOS E PERSPECTIVAS

Busquei este tema hoje por preocupar-me com o histórico da PMGO, que muitas vezes fica relegado aos domínios miúdos da caserna. Hoje, nem mesmo os jovens policiais conhecem nossas lutas, conquistas e origens.

Neste importante artigo da Revista TERRITORIAL, vi o descaso — não do artigo em si, mas de quem o respaldou internamente — ao deixar de relatar o impulso mater deste importante acervo cultural, não apenas para a instituição, mas para toda a comunidade goiana.

Algumas ações nascem miúdas e, agregadas a outros visionários, passam a ter maior amplitude e relevância. O descaso interno em historiar e preservar memórias deixa como legado a ideia de que apenas o presente é primordial, esquecendo-se de cada conquista que o sustenta.

Ninguém institui ações sem o entendimento dos fatos que as compõem. O respeito à instituição começa pelo respeito às tradições e aos registros de sua trajetória. Não é uma nomenclatura equivocada que sustenta narrativas que, por mais bem-intencionadas, relegam fatos históricos, criando cenários inverídicos e aviltando o pioneirismo e os registros relevantes para a manutenção da identidade institucional.

Nesta reflexão sobre a ausência de histórias na importante trajetória da instituição — desde o primeiro embrião do sistema de segurança pública no Estado — peço espaço para pontuar o que apreciei neste artigo:

Vejo que buscou dados relevantes sobre o nosso museu e apontou caminhos para melhorias, a fim de que sua funcionalidade se torne de conhecimento geral da sociedade. Eu apenas trocaria, no título, a palavra “Impopularidade” por “Invisibilidade”.

Quem forneceu os primeiros relatos sobre este museu, não sei dizer. Talvez por falta de conhecimento, por registros internos da APM não catalogados, ou por desconsiderar como irrelevante quem realmente deu início ao primeiro e tímido embrião deste importante espaço — também, à época, desconsiderado pela própria instituição.

Eis que este museu invisível já existia: em acervos dispersos, por vezes abandonados, mas sempre presentes — nas fotos guardadas na antiga seção da PM5 da APM, nos quadros das galerias dos quartéis, no centro acadêmico, nos equipamentos arquivados no almoxarifado, nas roupas de gala, espadins, fuzis e nas histórias contadas sobre participações relevantes em momentos que promoveram estabilidade social, em guerras, embates com indígenas e tantos outros episódios pouco conhecidos, tanto pela tropa quanto pela comunidade.

Aos meus olhos, o museu já estava ali — apenas invisível.

Vindo para minha casa, na cidade de Goiás, abri o guarda-roupa onde meu pai, apaixonado pela instituição, reservava uma porta para pendurar antigos fardamentos de sua época na caserna. Pedi a ele, e, mesmo contrariado, cedeu-me quatro conjuntos, dizendo: “daqui a três anos vão jogar no lixo”.

Chamei um amigo aspirante, formado comigo no CFO — Celso Gonçalves Borges — para pleitearmos um espaço na Academia. Ali começaríamos nosso diminuto museu, voltado inicialmente ao público interno e, quem sabe um dia, expandido para um espaço maior e mais relevante.

Fiz um pequeno ofício ao Subcomandante, Major Noronha, que levou à apreciação do Tenente-Coronel Hercílio. Para nossa surpresa, foi-nos cedido um espaço no Corpo da Guarda, à direita de quem entra na APM.

O almoxarifado contribuiu com coletes, fardamentos de gala, armas antigas e espadins. Montamos murais de insígnias militares. Tudo foi assentado em livro tombo, na esperança de dar corpo a novos registros e ver o museu crescer.

Não me recordo se houve publicação em boletim interno. Mas aquele museu já trazia ares de início — de contar e eternizar histórias, de inspirar alunos e oficiais em formação, de fomentar produções acadêmicas e fortalecer a identidade institucional.

Com o passar do tempo, todo idealizador se alegra ao ver que o embrião lançado ganha forma. Cerca de 16 ou 17 anos depois, o pequeno museu de 1991 foi apresentado em solenidade na APM, com discursos, banda e o devido reconhecimento aos organizadores.

Estive presente. Fiquei feliz ao ver que muitas das peças coletadas por mim e pelo então aspirante Celso ainda estavam ali.

Uma professora de história, convidada para estruturar o museu, aproximou-se de mim e disse, com um sorriso:

— Você faz parte desta história, não é? Eu não sabia.

Agradeci. Em seguida, um sargento comentou que, ao ouvir a conversa, fez questão de dizer a ela:

— Muitas dessas peças são do museu criado pela Major Damásio e pelo Capitão Celso.

Não vejo isso como omissão individual, mas como uma espécie de amnésia institucional — aquela que frequentemente deixa de registrar quem deu forma a iniciativas importantes.

Cito, por exemplo: o Coronel Baltazar, primeiro comandante do Colégio Militar; o Coronel Jorge Sobrinho, na implantação do policiamento aéreo; os criadores do PROERD; o Coronel Mota, com o policiamento tático motorizado — entre tantos outros que precisam ter seus feitos preservados.

Essa memória não deve ser construída com vaidade, mas com justiça.

Com orgulho, como gestora de uma escola militar, levei alunos à cidade de Goiás para conhecer museus e monumentos, incluindo o quartel da PMGO — marco do primeiro núcleo de segurança pública do Estado.

Ali, o museu deixou de ser apenas interno e tornou-se universal, aberto à comunidade e a visitantes de todo o país. Os fardamentos cedidos por meu pai ainda estavam expostos, agora integrados a outros acervos importantes.

No entanto, senti falta de contextualização: datas, autores, narrativas mais consistentes. Muitas explicações eram superficiais, revelando preparo ainda insuficiente dos guias.

Sobre a participação na Guerra do Paraguai, por exemplo, faltava clareza: à época, não existia ainda a Polícia Militar como hoje, mas sim corpos policiais provinciais, guardas nacionais e forças auxiliares, que atuavam tanto na ordem interna quanto no apoio militar.

Helena Aparecida Damásio - Coronel PM
Acadêmica Fundadora da Cadeira  nº  58

Esse período foi fundamental para Goiás, trazendo:
— fortalecimento institucional das forças policiais;
— maior militarização da segurança pública;
— experiência de combate;
— contribuição para a formação da futura PMGO.

Mesmo com tantos fatos relevantes, as narrativas apresentadas ainda carecem de profundidade.

Somam-se a isso temas pouco explorados, como:
— conflitos com indígenas na década de 1980;
— a história da Banda de Música da PMGO, tão presente nas manifestações culturais e religiosas da cidade.

Hoje, com o abandono da reforma da unidade centenária, o acervo encontra-se acumulado e esquecido em um espaço provisório que se tornou permanente.

A antiga instalação, por sua vez, caminha para a ruína — sinalizando omissão institucional, do IPHAN e da gestão estadual.

Corremos o risco de perder não apenas um prédio histórico, mas um patrimônio de memória.

E o que resta, então, pode se tornar apenas um amontoado de entulho — símbolo de desrespeito não só à instituição, mas à própria comunidade que ela serve.

Helena Aparecida Damásio - Coronel PM
Acadêmica Fundadora da Cadeira  nº  58


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Silêncio destilado

Escombros:Sobras de vidas
Sonhos
Solidão

É preciso dizer mais?

Entre uma dose e outra
reviro restos.
Garrafas por companhia.
Esqueço dores,
arrefeço a alma.
Tudo em vão.

Falo de mim.
Do que pensei ser.
Fui?
Das escolhas
sobrou meu nada.
Saudade veio depois.

Não quero o dó
de quem passa.
O meu fel me basta.

Em meio aos escombros
recolho meus cacos,
me afogo em doses
de silêncio destilado.

É preciso dizer mais?

Não.
Divino Alves de Oliveira - Coronel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Major Eurípedes Furtuoso: Uma Vida Dedicada à Música Militar

Fundador, mestre e visionário. O Major Furtuoso foi o pilar da modernização do Corpo Musical da PMGO. Desde a criação da Banda Sinfônica até a formação de novas gerações de músicos, sua gestão humanizada quebrou paradigmas e elevou nossa música a palcos nacionais.
Seu nome agora é honraria oficial através da Medalha do Mérito Musical, reconhecendo quem, como ele, presta serviços relevantes à nossa história.

Esse grande homem, músico, Policial Militar e Pai de família exemplar, que nos deixou em 25/05/2014, partindo para levar sua musicalidade ao Oriente Eterno. Descanse em paz, Maestro!

Major PM Eurípedes Furtuoso, é Patrono da Cadeira 5, da Academia de Artes Letras Ciência e Cultura dos Militares de Goiás Mauro Borges (AGL-MB)
Fontes:

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Amor e diferenças

Quando o amor sobrepõe às diferenças,
não há muros, não há fronteiras,
apenas pontes feitas de afeto,
tecidas na coragem das mãos sinceras.

Visões distintas, olhares diversos,
mundos que dançam em ritmos próprios,
mas o amor, em sua força imensa,
une os corações, dissolve os próprios.

Não importa a cor, a crença ou o jeito,
nem caminhos que pareçam opostos,
o amor abre janelas, amplia o leito,
faz do diverso um mesmo gosto.

No encontro das diferenças, cresce a luz,
no respeito nasce a verdadeira paz,
pois o amor não se prende à razão,
ele apenas aceita e refaz.

Quando o amor sobrepõe as visões,
o mundo se torna mais vasto e inteiro,
e a alma se abre, sem condições,
para o abraço de um sonho verdadeiro.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

O Pós Caos


Não me olhe esperando o pavio curto,
A fumaça preta ou o grito contido.
O aviso prévio já se fez absurdo,
E o que era estrondo, agora é ruído.

Eu sou a cratera, não o vulcão,
O chão que cedeu, não o peso em cima.
Não busco mais rima ou explicação,
Pois quem já partiu não teme a ruína.

Havia uma força que me sustentava,
Uma casca grossa, um muro, um degredo.
Mas a pressão, de tanto que inchava,
Levou o que eu era e também meu medo.

Não espere o susto, o baque, o trovão,
A conta chegou e o vidro partiu.
Sobrou o silêncio da devastação:
Eu sou o cara que já explodiu.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

Quando os sinos da agonia dobram


Quando os sinos da agonia dobram,Não é só o bronze que treme no ar,
É a carne da cidade que arrepia,
É o tempo que para, para escutar.

Dobram sobre telhados e calçadas,
Sobre o riso interrompido na esquina,
Sobre o copo ainda meio cheio,
Sobre a última palavra não dita.

Cada badalada é um nome sem rosto,
Um rosto sem túmulo,
Uma história que cai do livro da vida
Sem que ninguém tenha marcado a página.

Quando os sinos da agonia dobram,
Os pássaros hesitam no voo,
Os pregadores engolem seus discursos,
E até o vento parece tirar o chapéu.

Dobram pela morte e pela culpa,
Pela fome esquecida nos becos,
Pela dor que ninguém noticia,
Pelos gritos que o mundo silenciou.

É então que a alma se vê ao espelho:
Não no vidro, mas naquilo que falta,
No abraço que nunca foi dado,
Na ponte que não saiu do papel.

Quando os sinos da agonia dobram,
Perguntam ao coração, em segredo:
Quantos mortos carregas vivos?
Quantos vivos deixaste morrer?

E se não tremes ao ouvi-los soar,
É porque já vestes luto por dentro
E nem percebeste a tua própria
Procissão passando em silêncio.

Porque esses sinos não dobram ao acaso:
Eles marcam o ponto exato
Em que a morte toca a vida,
E a vida escolhe se desperta
Ou se deita ao lado dela.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

Ambulancioterapia: o remédio amargo da farra política

No coração do interior brasileiro, onde o asfalto some e o chão vermelho de terra grita por socorro, a saúde vira espetáculo. Não é hospital com alas cheias de remédios e médicos de plantão, não. É a ambulancioterapia, esse elixir milagroso ofertado por deputados federais, estaduais e até vereadores miúdos, que chegam em comitivas barulhentas, sirenes ligadas, prometendo salvação sobre rodas.

Imagine a cena em Itapema dos Brejos ou qualquer lugarejo esquecido: o político desce do jatinho fretado, microfones na mão, e inaugura a ambulância novinha, pintada com as cores do partido. “Olha aí, meu povo! Essa belezura leva o doente pro Hospital de Urgência onde existe recurso, num piscar de olhos!”, grita ele, enquanto a multidão aplaude, esquecendo que o posto de saúde local ainda tem fila de meses pra um raio-X. A ambulância roda por uns dias, vira selfie de campanha, e logo some na garagem da prefeitura – ou pior, é “emprestada” pra levar o prefeito em romaria. Ambulancioterapia pura: trata o sintoma com alarde, mas ignora a doença crônica da falta de estrutura.

E não para por aí. Vem a farra dos ônibus da saúde, esses colossos rodoviários que devoram milhões do erário. Chegam lotados de exames grátis: ultrassom, mamografia, dentista sorridente. “Partiu pro mutirão!”, anunciam os outdoors. O deputado estadual, suado de tanto discursar, embarca meia cidade num ônibus climatizado que ruma pra capital ou até mesmo na cidade local. Lá, num ginásio alugado, o povo faz fila pra um check-up de fim de semana. Volta com um papelzinho na mão – “Volte em 30 dias” – e o político já some, deixando o doente na mesma poeira de antes. É saúde de porteira fechada: abre só pra foto, fecha pro resto do ano.

Essa ciranda brasileira, de Itapema dos Brejos a Cantão das Onças, passando por Belos Lagos e Montes Limpos, é o retrato fiel da política do pão e circo 2.0. Deputados federais mandam verbas federais pra ambulâncias que nunca saem do perímetro eleitoral; estaduais articulam emendas pra ônibus que param na eleição seguinte; vereadores, coitados, pedem carona na farra pra posar de heróis locais. Tudo isso enquanto o SAMU estadual engasga em falta de combustível, e o hospital municipal vira depósito de almas penadas.

No fim, o brasileiro interiorano ri pra não chorar. Sabe que a ambulância não cura o câncer da negligência, e o ônibus da saúde não pavimenta estradas pro futuro. É farra de sirene e diesel, mas o verdadeiro remédio – investimento em gente, em UPAs permanentes, em médicos que fiquem – continua engavetado na gaveta dos interesses. Quem dera um dia a política trocasse o holofote pelo bisturi de verdade.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

Antes de Existir, Já Resistia

A história não contada do Museu da PMGO e o risco do apagamento da memória institucional. Inspirado no artigo da Revista TERRITORIAL Cidade ...