Dizia o mofado (mas certeiro) personagem de Al Pacino que a vaidade era seu pecado predileto. Assino embaixo, com caneta tinteiro e uma caligrafia impecável que, secretamente, espero que você elogie. A vaidade é o pecado "limpo". Não tem a lambança da gula, nem o cansaço da ira; é um pecado que se veste bem, usa perfume caro e gosta de ser notado, mesmo quando finge que está apenas "de passagem".
Mas eu tenho um trunfo, uma espécie de freio de mão moral que me impede de virar um pavão insuportável: eu sou "umirde".
A Engenharia da Humildade
Ser "umirde" — assim, com essa grafia que já carrega o deboche da autoconsciência — é uma arte refinada. É o que me permite postar uma foto incrível e legendar com uma frase profunda sobre "a simplicidade da vida". É a capacidade de receber um elogio estrondoso e responder com um "Imagina, são seus olhos", enquanto, por dentro, minha alma faz uma dancinha da vitória digna de final de campeonato.
A sorte de ser "umirde" é que isso me dá o salvo-conduto para ser vaidoso sem perder a elegância. A vaidade bruta, aquela sem filtro, é barulhenta. Já a vaidade "umirde" é estratégica. Ela não exige o holofote; ela apenas se posiciona onde a luz bate melhor, "por puro acaso".
O paradoxal prazer de não ser nada
O ápice da minha "umirdade" acontece quando consigo ser o mais simples da mesa. Há uma vaidade imensa em ser a pessoa menos pretensiosa do recinto. "Vejam como eu sou acessível!", grita o meu ego, enquanto aceito um café em copo de plástico com a mesma dignidade de quem degusta um vinho premiado.
Ser "umirde" me salva de ser um vilão de novela. Se eu fosse apenas vaidoso, seria o tipo que conta as vantagens em voz alta. Como sou "umirde", eu espero que você descubra as minhas vantagens sozinho, para que eu possa negar todas elas com um sorriso modesto.
"A verdadeira modéstia é, no fundo, a forma mais sofisticada de vaidade: ela força o outro a nos elogiar duas vezes."
O veredito do espelho
No fim das contas, minha sorte é que a "umirdade" me mantém humano. Ela é o verniz que esconde o meu desejo infantil de ser o centro do universo. Se a vaidade é o meu pecado predileto, a "omirdade" é o meu melhor disfarce.
Sigo assim: pecando com estilo, mas sempre pedindo desculpas pelo incômodo. Afinal, não há nada mais magnânimo do que ser alguém incrível e ter a "omirdade" de fingir que não sabe disso.
E se você achou este texto brilhante, por favor, me diga. Eu vou fingir que não me importo, mas vou guardar o seu comentário no bolso, como quem guarda um troféu de ouro que, "por sorte", acabou caindo na minha mão.
Edno Paula Ribeiro - Cad. 15 – AGL-MB

Nenhum comentário:
Postar um comentário