O Batismo do Espelho
Tudo começa com um "chamado". Raramente alguém
admite que quer o poder pelo prazer de mandar; o roteiro exige a narrativa do
sacrifício. "O povo me pede", dizem, enquanto ajustam a gravata ou o
lenço diante do espelho. Esse é o primeiro sintoma da distorção: a confusão
entre o "eu" e o "nós".
Aos poucos, o candidato deixa de ser um cidadão comum para se
tornar um monumento a si mesmo. O aperto de mão, que antes era um gesto de
conexão, vira uma ferramenta de marketing. O olhar, que deveria buscar as
carências da rua, passa a buscar apenas a lente da câmera.
A Alquimia dos Valores
No fundo desse poço, ocorre uma transmutação perigosa de
valores fundamentais. A ética, que deveria ser o norte, é substituída pela conveniência.
A verdade — aquela coisa rígida e teimosa — torna-se maleável, uma
"narrativa" a ser moldada conforme o sabor das pesquisas de opinião.
Nesse ecossistema de egos inflamados, a humildade é
vista como fraqueza e a escuta como perda de tempo. O político que se
lança no poço das vaidades passa a acreditar na própria hagiografia escrita por
seus assessores. Ele não quer mais servir à sociedade; ele quer que a sociedade
seja o cenário onde ele brilha sozinho.
- A
Solidariedade
vira assistencialismo estratégico.
- A
Justiça vira o
silenciamento dos opositores.
- O
Diálogo vira um
monólogo interrompido por aplausos ensaiados.
O Reflexo Turvo da Sociedade
O mais trágico não é apenas a transformação do indivíduo, mas
como isso distorce a percepção coletiva. Quando a vaidade se torna a moeda
corrente da política, a sociedade passa a aceitar o espetáculo no lugar da
gestão.
Começamos a admirar o "salvador da pátria" que fala
grosso, ignorando o gestor silencioso que resolve o problema do saneamento
básico. Valorizamos a lacração no post de rede social em detrimento do projeto
de lei bem fundamentado. A vaidade do político encontra eco na carência de um
povo que, muitas vezes, prefere o brilho do ouro falso à solidez do caráter.
O Fundo do Poço
O problema de mergulhar no poço das vaidades é que, lá no
fundo, o ar é rarefeito. O político isola-se em uma bolha de
"sim-senhores" e perde o contato com a realidade nua e crua das
calçadas.
Quando os valores fundamentais — como a honestidade
intelectual e a empatia real — são sacrificados no altar da autocelebração, o
que resta é um castelo de cartas. E, como toda estrutura baseada no ego, basta
um sopro da história para que ela desmorone, deixando para trás apenas o rastro
de uma sociedade que esqueceu como é ser representada por seres humanos, e não
por estátuas de si mesmos.
No fim das contas, o maior desafio da política moderna não é
vencer as eleições, mas conseguir atravessá-las sem se perder no caminho entre
o palanque e o espelho.
Edno Paula Ribeiro – Cad. 15 – AGL-MB

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