domingo, 26 de abril de 2026

Crônica: O Eco no Fundo do Abismo: O Poço das Vaidades Eleitorais


Dizem que o poder não muda as pessoas, apenas as revela. Mas, na política, essa revelação costuma vir acompanhada de um fenômeno óptico curioso: quanto mais alto o sujeito sobe no palanque, mais profunda se torna a queda no poço da própria vaidade.

O Batismo do Espelho

Tudo começa com um "chamado". Raramente alguém admite que quer o poder pelo prazer de mandar; o roteiro exige a narrativa do sacrifício. "O povo me pede", dizem, enquanto ajustam a gravata ou o lenço diante do espelho. Esse é o primeiro sintoma da distorção: a confusão entre o "eu" e o "nós".

Aos poucos, o candidato deixa de ser um cidadão comum para se tornar um monumento a si mesmo. O aperto de mão, que antes era um gesto de conexão, vira uma ferramenta de marketing. O olhar, que deveria buscar as carências da rua, passa a buscar apenas a lente da câmera.

A Alquimia dos Valores

No fundo desse poço, ocorre uma transmutação perigosa de valores fundamentais. A ética, que deveria ser o norte, é substituída pela conveniência. A verdade — aquela coisa rígida e teimosa — torna-se maleável, uma "narrativa" a ser moldada conforme o sabor das pesquisas de opinião.

Nesse ecossistema de egos inflamados, a humildade é vista como fraqueza e a escuta como perda de tempo. O político que se lança no poço das vaidades passa a acreditar na própria hagiografia escrita por seus assessores. Ele não quer mais servir à sociedade; ele quer que a sociedade seja o cenário onde ele brilha sozinho.

  • A Solidariedade vira assistencialismo estratégico.
  • A Justiça vira o silenciamento dos opositores.
  • O Diálogo vira um monólogo interrompido por aplausos ensaiados.

O Reflexo Turvo da Sociedade

O mais trágico não é apenas a transformação do indivíduo, mas como isso distorce a percepção coletiva. Quando a vaidade se torna a moeda corrente da política, a sociedade passa a aceitar o espetáculo no lugar da gestão.

Começamos a admirar o "salvador da pátria" que fala grosso, ignorando o gestor silencioso que resolve o problema do saneamento básico. Valorizamos a lacração no post de rede social em detrimento do projeto de lei bem fundamentado. A vaidade do político encontra eco na carência de um povo que, muitas vezes, prefere o brilho do ouro falso à solidez do caráter.

O Fundo do Poço

O problema de mergulhar no poço das vaidades é que, lá no fundo, o ar é rarefeito. O político isola-se em uma bolha de "sim-senhores" e perde o contato com a realidade nua e crua das calçadas.

Quando os valores fundamentais — como a honestidade intelectual e a empatia real — são sacrificados no altar da autocelebração, o que resta é um castelo de cartas. E, como toda estrutura baseada no ego, basta um sopro da história para que ela desmorone, deixando para trás apenas o rastro de uma sociedade que esqueceu como é ser representada por seres humanos, e não por estátuas de si mesmos.

No fim das contas, o maior desafio da política moderna não é vencer as eleições, mas conseguir atravessá-las sem se perder no caminho entre o palanque e o espelho.

 Edno Paula Ribeiro – Cad. 15 – AGL-MB 

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