segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando os sinos da agonia dobram


Quando os sinos da agonia dobram,Não é só o bronze que treme no ar,
É a carne da cidade que arrepia,
É o tempo que para, para escutar.

Dobram sobre telhados e calçadas,
Sobre o riso interrompido na esquina,
Sobre o copo ainda meio cheio,
Sobre a última palavra não dita.

Cada badalada é um nome sem rosto,
Um rosto sem túmulo,
Uma história que cai do livro da vida
Sem que ninguém tenha marcado a página.

Quando os sinos da agonia dobram,
Os pássaros hesitam no voo,
Os pregadores engolem seus discursos,
E até o vento parece tirar o chapéu.

Dobram pela morte e pela culpa,
Pela fome esquecida nos becos,
Pela dor que ninguém noticia,
Pelos gritos que o mundo silenciou.

É então que a alma se vê ao espelho:
Não no vidro, mas naquilo que falta,
No abraço que nunca foi dado,
Na ponte que não saiu do papel.

Quando os sinos da agonia dobram,
Perguntam ao coração, em segredo:
Quantos mortos carregas vivos?
Quantos vivos deixaste morrer?

E se não tremes ao ouvi-los soar,
É porque já vestes luto por dentro
E nem percebeste a tua própria
Procissão passando em silêncio.

Porque esses sinos não dobram ao acaso:
Eles marcam o ponto exato
Em que a morte toca a vida,
E a vida escolhe se desperta
Ou se deita ao lado dela.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

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