segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Amor e diferenças

Quando o amor sobrepõe às diferenças,
não há muros, não há fronteiras,
apenas pontes feitas de afeto,
tecidas na coragem das mãos sinceras.

Visões distintas, olhares diversos,
mundos que dançam em ritmos próprios,
mas o amor, em sua força imensa,
une os corações, dissolve os próprios.

Não importa a cor, a crença ou o jeito,
nem caminhos que pareçam opostos,
o amor abre janelas, amplia o leito,
faz do diverso um mesmo gosto.

No encontro das diferenças, cresce a luz,
no respeito nasce a verdadeira paz,
pois o amor não se prende à razão,
ele apenas aceita e refaz.

Quando o amor sobrepõe as visões,
o mundo se torna mais vasto e inteiro,
e a alma se abre, sem condições,
para o abraço de um sonho verdadeiro.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

O Pós Caos


Não me olhe esperando o pavio curto,
A fumaça preta ou o grito contido.
O aviso prévio já se fez absurdo,
E o que era estrondo, agora é ruído.

Eu sou a cratera, não o vulcão,
O chão que cedeu, não o peso em cima.
Não busco mais rima ou explicação,
Pois quem já partiu não teme a ruína.

Havia uma força que me sustentava,
Uma casca grossa, um muro, um degredo.
Mas a pressão, de tanto que inchava,
Levou o que eu era e também meu medo.

Não espere o susto, o baque, o trovão,
A conta chegou e o vidro partiu.
Sobrou o silêncio da devastação:
Eu sou o cara que já explodiu.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

Quando os sinos da agonia dobram


Quando os sinos da agonia dobram,Não é só o bronze que treme no ar,
É a carne da cidade que arrepia,
É o tempo que para, para escutar.

Dobram sobre telhados e calçadas,
Sobre o riso interrompido na esquina,
Sobre o copo ainda meio cheio,
Sobre a última palavra não dita.

Cada badalada é um nome sem rosto,
Um rosto sem túmulo,
Uma história que cai do livro da vida
Sem que ninguém tenha marcado a página.

Quando os sinos da agonia dobram,
Os pássaros hesitam no voo,
Os pregadores engolem seus discursos,
E até o vento parece tirar o chapéu.

Dobram pela morte e pela culpa,
Pela fome esquecida nos becos,
Pela dor que ninguém noticia,
Pelos gritos que o mundo silenciou.

É então que a alma se vê ao espelho:
Não no vidro, mas naquilo que falta,
No abraço que nunca foi dado,
Na ponte que não saiu do papel.

Quando os sinos da agonia dobram,
Perguntam ao coração, em segredo:
Quantos mortos carregas vivos?
Quantos vivos deixaste morrer?

E se não tremes ao ouvi-los soar,
É porque já vestes luto por dentro
E nem percebeste a tua própria
Procissão passando em silêncio.

Porque esses sinos não dobram ao acaso:
Eles marcam o ponto exato
Em que a morte toca a vida,
E a vida escolhe se desperta
Ou se deita ao lado dela.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

Ambulancioterapia: o remédio amargo da farra política

No coração do interior brasileiro, onde o asfalto some e o chão vermelho de terra grita por socorro, a saúde vira espetáculo. Não é hospital com alas cheias de remédios e médicos de plantão, não. É a ambulancioterapia, esse elixir milagroso ofertado por deputados federais, estaduais e até vereadores miúdos, que chegam em comitivas barulhentas, sirenes ligadas, prometendo salvação sobre rodas.

Imagine a cena em Itapema dos Brejos ou qualquer lugarejo esquecido: o político desce do jatinho fretado, microfones na mão, e inaugura a ambulância novinha, pintada com as cores do partido. “Olha aí, meu povo! Essa belezura leva o doente pro Hospital de Urgência onde existe recurso, num piscar de olhos!”, grita ele, enquanto a multidão aplaude, esquecendo que o posto de saúde local ainda tem fila de meses pra um raio-X. A ambulância roda por uns dias, vira selfie de campanha, e logo some na garagem da prefeitura – ou pior, é “emprestada” pra levar o prefeito em romaria. Ambulancioterapia pura: trata o sintoma com alarde, mas ignora a doença crônica da falta de estrutura.

E não para por aí. Vem a farra dos ônibus da saúde, esses colossos rodoviários que devoram milhões do erário. Chegam lotados de exames grátis: ultrassom, mamografia, dentista sorridente. “Partiu pro mutirão!”, anunciam os outdoors. O deputado estadual, suado de tanto discursar, embarca meia cidade num ônibus climatizado que ruma pra capital ou até mesmo na cidade local. Lá, num ginásio alugado, o povo faz fila pra um check-up de fim de semana. Volta com um papelzinho na mão – “Volte em 30 dias” – e o político já some, deixando o doente na mesma poeira de antes. É saúde de porteira fechada: abre só pra foto, fecha pro resto do ano.

Essa ciranda brasileira, de Itapema dos Brejos a Cantão das Onças, passando por Belos Lagos e Montes Limpos, é o retrato fiel da política do pão e circo 2.0. Deputados federais mandam verbas federais pra ambulâncias que nunca saem do perímetro eleitoral; estaduais articulam emendas pra ônibus que param na eleição seguinte; vereadores, coitados, pedem carona na farra pra posar de heróis locais. Tudo isso enquanto o SAMU estadual engasga em falta de combustível, e o hospital municipal vira depósito de almas penadas.

No fim, o brasileiro interiorano ri pra não chorar. Sabe que a ambulância não cura o câncer da negligência, e o ônibus da saúde não pavimenta estradas pro futuro. É farra de sirene e diesel, mas o verdadeiro remédio – investimento em gente, em UPAs permanentes, em médicos que fiquem – continua engavetado na gaveta dos interesses. Quem dera um dia a política trocasse o holofote pelo bisturi de verdade.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

Os festejos natalinos e ano novo, em tempos de extremismos políticos

Natal em chamas políticas

Nas ruas de Cantão das Onças ou Itapema dos Brejos, onde o sereno goiano ainda resiste ao calor das paixões ideológicas, o Natal chega como um mensageiro teimoso de paz. As luzes piscam nas fachadas das casas humildes, enfeites de palha e papel crepom pendurados com mãos calejadas de trabalho público. Famílias se reúnem à mesa, o cheiro de peru assado misturando-se ao de rabanadas, e por um instante, o mundo lá fora parece distante. "Paz na terra aos homens de boa vontade", entoa o padre na missa do galo, ecoando Mateus em meio a velas tremulantes. Mas boa vontade? Em tempos de extremismos, essa frase soa como ironia.

Os extremismos políticos, esses ventos furiosos que varrem o Brasil de norte a sul, infiltram-se até nas ceias. No WhatsApp, tios bolsonaristas trocam memes furiosos contra "comunistas petistas", enquanto primos lulistas respondem com áudios inflamados sobre "golpistas fascistas". A televisão, ao fundo, alterna entre o Papai Noel comercial e debates raivosos, onde analistas gritam uns sobre os outros como cães latindo para sombras. O extremismo não poupa nem o Menino Jesus: uns o reclamam como mascote da direita moralista, outros como ícone da esquerda igualitária. E assim, o presépio vira ringue, o presépio de Belém transformado em Brasília de ódios.

A passagem de ano agrava o drama. Fogos estouram no céu de Goiás, prometendo renovação, mas o calendário novo carrega as mesmas divisões. Contamos regressivamente – dez, nove, oito – e brindamos com espumante barato, desejando prosperidade. No entanto, o extremismo sussurra: "Só para os nossos". Redes sociais explodem com promessas de "limpeza geral" em 2026, uns sonhando com interventores, outros com reformas radicais. Esquecemos que o ano novo não apaga cicatrizes; ele apenas veste as velhas feridas com confetes. Em cidades como as nossas, onde a política local ainda pulsa em vereanças e prefeituras, o extremismo se alastra como seca, polarizando até as quadrilhas juninas do futuro.

Mas há esperança no ar natalino, fina como o orvalho matinal. Imagine se, entre o peru e o panetone, ousássemos silenciar os celulares? Se, na virada, trocássemos gritos por abraços, memes por memórias? Os festejos nos lembram que o humano precede o ideológico. Em tempos de extremismos, o Natal e o Ano Novo não são feriados vazios; são convites à trégua. Que os fogos iluminem não vitórias partidárias, mas a possibilidade de diálogo. Afinal, na mesa da vida, cabemos todos – ou pelo menos deveríamos tentar.

Edno Paula Ribeiro - Major PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

O Silêncio das Cores


Quando o sol nasce e o dia não desperta,
E o cinza cobre o que antes tinha cor,
A alma vaga, uma porta entreaberta,
Onde o frio entra e congela o calor.

O relógio insiste em seu tique-taque,
Mas o tempo parece não caminhar,
Somos peças soltas num tabuleiro de xeque,
Sem rei, sem rainha, sem lugar para estar.

Os sorrisos tornam-se gestos treinados,
Máscaras vestidas por pura obrigação,
Caminhamos em trilhos, passos pesados,
No piloto automático da solidão.

O “porquê” se cala, o “para quê” se esconde,
E as metas de ontem viram pó na estante.
A voz pergunta, mas ninguém responde,
Tudo é vasto, mas nada é o bastante.

Porém, no fundo desse poço mudo,
Onde a bússola gira sem apontar o norte,
Talvez perder o sentido de tudo
Seja o jeito da vida nos fazer mais forte.

Pois é no quadro em branco, sem pintura,
Que se pode criar um desenho novo.
O vazio assusta, traz amargura,
Mas é o espaço limpo para nascer de novo.

Respire fundo, deixe o tempo ser nada,
Não busque respostas na pressa ou na dor.
Às vezes, a pausa é a própria estrada,
Até que a vida, sozinha, reencontre a cor.
Edno Paula Ribeiro - Major PM 
Acadêmico Fundador da Cadeira nº15

RECONSTRUÇÃO


Catei pedaços de mim.
Espalhados
pelos cantos
onde andei.

Vestígios.
Vestes rasgadas.
Versões minhas
que ficaram pelo chão.

Cada qual com sua dor.
Dor que lateja.
Dor que cala.
Dor que aprende a respirar sozinha.

E eu…
juntando cacos
com mãos trêmulas
e coragem nascente.

Quando os reuni,
um a um,
entre lágrimas e lucidez,
descobri:

Não eram ruínas.
Eram alicerces
Inteiros…
não apesar das chagas,
mas por causa delas.

Eu me permiti dilacerar.
Eu.
Rasguei sonhos não sonhados.
Enterrei projetos não realizados.

Silenciei desejos que pediam voo.
Fui me desfragmentando
ao longo da estrada,
feito vidro fino
sob passos apressados.

E quando pensei
ter chegado ao fim…
Era apenas sombra
diante do cume.

Espectadora
da minha própria existência.
Um espectro vazio
ansiando por
sol,
chuva,
vento,
vida.

Fiquei anos
sem olhar no espelho.
Anos.
Temia o vazio
que eu mesma alimentava.

Mas hoje,
eu sustento o olhar.
Amo meu reflexo.
Porque ele me desafia.

Ele me chama.
Ele me lembra
que enquanto houver fôlego,
eu não retrocedo.

Enquanto o peito pulsa,
eu avanço.
Não é tarde.
Nunca foi.

Ainda posso viver.
Viver de dentro para fora.
Ouvir meu coração pulsar
não por sobrevivência,
mas por paz.

Paz que não implora.
Paz que não se esconde.
Paz inteira.
Paz viva.

Helena Aparecida Damásio - Coronel PM
Acadêmica Fundadora da Cadeira nº 58

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Temos uma dívida com Bernardo Élis


Quero usar este espaço na revista Leitura Estratégica para, eventualmente, falarmos da nossa goianidade, cultura e formação da nossa sociedade. Hoje, vou abrir com um ícone da literatura brasileira, nosso Bernardo Élis, que não foi apenas o maior escritor goiano do século XX, foi, sobretudo, o primeiro a revelar Goiás ao Brasil sem pedir licença e sem pedir desculpas. 

A obra de Bernardo Élis não buscou embelezar o sertão, mas expô-lo, sem ser o sertão fictício, heroico ou folclórico, mas o sertão verdadeiro, bruto, duro, violento, desigual e humano. Aliás, em nossas conversas com avós e outros antepassados, podemos sentir o cheiro desta literatura, que parece distante, mas tem traços da nossa vida e história. 

Contando um pouco dele, Bernardo nasceu, em 1915, em Corumbá de Goiás, e faz parte de uma geração que viveu a transição mais radical da história do Estado. Ele presenciou o fim do ciclo colonial tardio (pois o começo do século passado ainda tinha resquícios do Brasil antigo em nossa sociedade, apesar de já estarmos na Era Republicana), a decadência da antiga capital e o nascimento de Goiânia, inaugurada como promessa de modernidade em meio a um território. 

Viveu um Goiás que deixava de ser fim de mundo para se tornar passagem, estrada, plantação e boiada – e começava a despertar um modelo econômico que se firma de meados do século para frente. Depois, testemunhou a construção de Brasília, em 1960, que deslocaria definitivamente o eixo político e simbólico da região. Goiás entra no mapa –, meio que de carona. 

A literatura de Bernardo nasce nessa fratura histórica. Do Goiás velho (e não estou falando da cidade) para o Goiás novo. Enquanto o discurso oficial falava em progresso, integração e futuro, Bernardo Élis registrava o que permanecia intacto: o coronelismo, o abandono, a brutalidade cotidiana e a solidão humana. 

Em seu livro mais emblemático, “O Tronco”, de 1956, o autor marca Goiás na literatura nacional, com contundência, mostra o violento interior brasileiro. Merece a atenção como livro fundamental para ser goiano. Não é um episódio local ou regional. É a formação da sociedade brasileira na veia, daquele mundo rural dominante e o poder político, o Brasil que se tinha na forma crua e nua – em letras goianas que ganharam o mundo da literatura.  

Como ele não escreveu para agradar os poderosos, agradou o mundo da literatura. Ele escreveu para testemunhar e transcendeu Goiás. Gosto de duas definições, não sei onde li, que, em Bernardo Élis, “cada frase carrega o peso do silêncio que dominava a vida no interior”, e que ele está na galeria dos grandes intérpretes do Brasil, sentado ao lado de Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa. Eles compreenderam e traduziram o interior – o núcleo formador do Brasil.

Bernardo foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1975, um marco histórico. O autor se tornou o primeiro e único goiano a ocupar uma cadeira na instituição que simboliza o reconhecimento máximo da literatura nacional. Não foi uma conquista pessoal, foi a admissão formal de que o Brasil também se escreve a partir do Centro-Oeste. 

Bernado e sua escrita, seca, econômica e precisa, são mais citados que lidos – infelizmente. Coloquem em sua lista de leitura ou releituras, em 2026, com urgência, O Tronco. Não é um convite, é uma intimação – precisamos pagar essa dívida com Bernardo Élis. Vamos fazer esse acordo?


Dr Juscimar Pinto Ribeiro
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 41
Advogado especialista em Direito Administrativo e Direito Constitucional
Fonte: Revista Leitura Estratégica


 

Alquimia da sedução


Verdade,
mentira?
Qual?
A minha
ou a sua?

A cada insight,
uma versão.
Realidades que invento.
A cada ouvido,
uma melodia.

Flauta de Pan:
encantamento,
sedução,
doce som
a gerar ilusões.
Partitura de tinta e bile.

Visual?
Auditivo?
Sinestésico?
Qual o seu gosto?

Na flecha lançada,
a gota certa do veneno.
Na minha ilusão,
espelho seus sonhos.

Verdade ou mentira?
Perfeita armadilha.
Pouco importa.
Feitiço lançado:
Música aos seus ouvidos.
Alquimia da sedução.

Divino Alves de Oliveira - Coronel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20


Véu do palco

Na entropia da vida
descerram-se cortinas.
Numa constante encenação,
múltiplos palcos.
Véus de ilusão
a revelar e esconder
realidades menos amenas.
Tudo é teatro.

Numa coreografia do cotidiano,
ao mesmo tempo,
sou ator e roteirista.
Filtro o abismo.
Fabrico ilusões:
sofrimento em drama,
perda em poesia,
tédio em rotina.

Em cada máscara,
consciências diferentes,
um mundo de sonhos:
plateia,
trama,
ribalta,
coxia.

Que peça enceno agora?
Que roteiros escrevi e escreverei?

A cada roteiro,
um novo véu
a tornar menos entrópica
a realidade que insiste em se desvelar.

Divino Alves de Oliveira - Coronel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20



 

A Mó


Aos ouvidos,
pedras em sincronia.
O canto de sereia,
seduz almas em queda.
Retórica do vazio.

Diante dos olhos,
o mundo se desnuda.
Bocas repletas de sofismos.
Venenos adocicados.
Ópio social.

Nos ombros,
o eu coletivo,
apegos,
desejos do ter,
pesando.

Na boca, a bile arde.
Na garganta,
gosto de fel.

Ralo gravitacional.
Força a tudo puxar.
Pedras de moinho a girar.

No centro do abismo,
idolatria .
Mundo que se fere
não se cura.

Náusea espiritual.
Desfaço-me em vômitos.
Asco.

Em meio às agruras do tempo,
a mó continua,
a triturar almas e sonhos.

Divino Alves de Oliveira
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20
 

Amor e diferenças

Quando o amor sobrepõe às diferenças, não há muros, não há fronteiras, apenas pontes feitas de afeto, tecidas na coragem das mãos sincera...