sexta-feira, 14 de junho de 2024

CARTINHAS DE AMOR

Passou o tempo das cartinhas de amor.

Tempo da cartinha em papel decorado e perfumado,

lacrada em envelope quadriculado nas beiradas,

em verde e amarelo.

Às vezes, uma camada grossa de cola.

Do momento da decisão de fazer a declaração de amor

até o momento em que a cartinha seria lida

havia afeto no encaminhamento.

Havia peleja a latejar nos dois lados da cabeça, nas fontes.

Decidindo pela quimera, lá ia o incauto, a pelejar na arrumação do material.

Havia de conseguir a tal folhinha.

Perfumá-la. Queimar-lhe as bordinhas,

sapecando as pontas dos dedos no coto do fósforo.

Pergaminho caseiro!

E depois as palavrinhas que seriam ali deitadas.

Tantos ais, antes e depois das vírgulas.

E pontos de exclamação com o pingo borrado.

E ainda a dobrinha perfeita para caber no envelopinho.

Aquele que já vinha com a cola escondida na beiradinha.

O recém e decidido enamorado passava ali a língua morninha e colava.

Estava selado e lacrado o seu amor! A sua declaração!

O seu coração se derramado em versinhos...

E ainda havia a estradinha pelo sertão

na soalheira do meio-dia,

até chegar à pracinha, abrigo da igreja, do mercado, da casa de arreios,

e da portinha velha com a tabuleta: “correios”.

Para apear o burrico, contavam-se quatro cucos.

Lá, era entrar e aviar a cartinha.

Tantos encaminhamentos... Perfeitos!

Havendo querelas, dúvidas, incompatibilidades,

o tempo dava conta de ajudar na decisão.

Havia beleza no caminho comprido,

e no trago para molhar a goela, ali ao lado, no poente da pracinha.

Tudo era preâmbulo para a empreitada.

Havia tempo, de sobra, para o coração falar... e ser ouvido.

A cabeça ouvia o coração, apalpava a demanda, untava-lhe com argumentos.

O coração rebatia. A cabeça matutava.

O coração insistia, travesso, afoito.

A cabeça cedia. Tudo calculado. Medido. Pesado. Ponderado,

contratado entre coração e cabeça,

testemunhado pela aba do chapéu. O legítimo Panamá!

E a cartinha viajava...

E chegava do outro lado do mundo. Distante.

Pisada em mãos, capangas, alforjes. E a espera?

Até hoje não foi explicado,

Nem pelos doutores ou pelos poetas,

se a espera era mais doce do que a resposta.

E a vida seguia preguiçosa nas longínquas tardes,

até que outro burrico aparecia na estrada.

E “o sim ou o não” vinha tão matutado que não havia querelas.

A vida seguia.

Os arranjos eram feitos em novas e pisadas cartinhas.

E gastava-se uma mocidade para sacramentar um amor.

E hoje?

O que se tem é uma dúzia de apressamentos.

Tudo empacotado em um aparelhinho.

E num átimo de segundo, a declaração é enviada.

E não há tempo para as conversas arrastadas, pacientes, doces...

Em palavras bonitas pesquisadas no dicionário.

Afoito e incauto o coração, de costas para a cabeça,

envia uma dúzia de palavras impensadas, apressadas...

E, arrependido, pensa que seria bom poder entrar pelo tal aparelhinho 

e recolher as palavras, enviadas desobedientemente, pelo coração.

Em sessenta batimentos cardíacos, a resposta chega.

E a impotência diante do tal aparelhinho

arranca suspiros de saudades do papelinho perfumado,

do envelopinho com as bordas coloridas, da estrada, do burrico, da pracinha,

e da certeza em escrever aquelas doces palavrinhas.

Certeza que só uma madrugada inteira,

debruçado em uma velha e encardida mesa rústica de cozinha,

à luz de lamparina, é capaz de dar aos enamorados,

na peleja romântica de escrever uma Cartinha de Amor!



Lucelita Maria - Ten Cel BMTo

Membro da Academia Palmense de Letras – Cadeira 19 – Patrono Casimiro de Abreu, Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do DF – ALMEBRAS, Cadeira 25 e Academia de Letras, Ciências e Artes dos Militares Estaduais do Tocantins – ALCAM-TO, Cadeira 2, em ambas, Patrono Manoel Odir Rocha. É sócia correspondente na Academia de Letras do Norte Tocantinense – ACALANTO e Academia Goiana de Letras, Ciências e Cultura dos Militares do Estado de Goiás – AGL-MB, e associada à União Brasileira de Escritores – UBE/GO

3 comentários:

Coronel Divino Alves disse...

Oi Lita! Gostei do seu estilo de escrever! Escreve fácil! De forma direta e fala daquilo que vivemos, num lirismo gostoso dese ler!
Parabéns! Uma honra ter uma publicação sua no blog da AGL-MB

Albuquerque disse...

Mais um primor em forma de prosa e verso, trazendo o bucólico do campo, confrontando a dinâmica do desenvolvimento como o algoz que derruba o romantismo de uma vida desejada, por quem já esteve neste cenário, como eu, que ainda escrevi e recebi resposta ansioso, daquele primeiro amor. Realmente, lembrando disto, através de suas palavras, não sabíamos o que era melhor: "a espera,ou a resposta". Parabéns minha Confreira Vice-Presidente da ALCAM-TO.

Anônimo disse...

Lucelita é uma mulher sensacional, inteligente, extremamente gentil e prestativa. Que honra tive em poder compartilhar momentos com ela. 🫶🏻

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