Tempo da cartinha em papel decorado e perfumado,
lacrada em envelope quadriculado nas beiradas,
em verde e amarelo.
Às vezes, uma camada grossa de cola.
Do momento da decisão de fazer a declaração de amor
até o momento em que a cartinha seria lida
havia afeto no encaminhamento.
Havia peleja a latejar nos dois lados da cabeça, nas fontes.
Decidindo pela quimera, lá ia o incauto, a pelejar na arrumação do material.
Havia de conseguir a tal folhinha.
Perfumá-la. Queimar-lhe as bordinhas,
sapecando as pontas dos dedos no coto do fósforo.
Pergaminho caseiro!
E depois as palavrinhas que seriam ali deitadas.
Tantos ais, antes e depois das vírgulas.
E pontos de exclamação com o pingo borrado.
E ainda a dobrinha perfeita para caber no envelopinho.
Aquele que já vinha com a cola escondida na beiradinha.
O recém e decidido enamorado passava ali a língua morninha e colava.
Estava selado e lacrado o seu amor! A sua declaração!
O seu coração se derramado em versinhos...
E ainda havia a estradinha pelo sertão
na soalheira do meio-dia,
até chegar à pracinha, abrigo da igreja, do mercado, da casa de arreios,
e da portinha velha com a tabuleta: “correios”.
Para apear o burrico, contavam-se quatro cucos.
Lá, era entrar e aviar a cartinha.
Tantos encaminhamentos... Perfeitos!
Havendo querelas, dúvidas, incompatibilidades,
o tempo dava conta de ajudar na decisão.
Havia beleza no caminho comprido,
e no trago para molhar a goela, ali ao lado, no poente da pracinha.
Tudo era preâmbulo para a empreitada.
Havia tempo, de sobra, para o coração falar... e ser ouvido.
A cabeça ouvia o coração, apalpava a demanda, untava-lhe com argumentos.
O coração rebatia. A cabeça matutava.
O coração insistia, travesso, afoito.
A cabeça cedia. Tudo calculado. Medido. Pesado. Ponderado,
contratado entre coração e cabeça,
testemunhado pela aba do chapéu. O legítimo Panamá!
E a cartinha viajava...
E chegava do outro lado do mundo. Distante.
Pisada em mãos, capangas, alforjes. E a espera?
Até hoje não foi explicado,
Nem pelos doutores ou pelos poetas,
se a espera era mais doce do que a resposta.
E a vida seguia preguiçosa nas longínquas tardes,
até que outro burrico aparecia na estrada.
E “o sim ou o não” vinha tão matutado que não havia querelas.
A vida seguia.
Os arranjos eram feitos em novas e pisadas cartinhas.
E gastava-se uma mocidade para sacramentar um amor.
E hoje?
O que se tem é uma dúzia de apressamentos.
Tudo empacotado em um aparelhinho.
E num átimo de segundo, a declaração é enviada.
E não há tempo para as conversas arrastadas, pacientes, doces...
Em palavras bonitas pesquisadas no dicionário.
Afoito e incauto o coração, de costas para a cabeça,
envia uma dúzia de palavras impensadas, apressadas...
E, arrependido, pensa que seria bom poder entrar pelo tal aparelhinho
e recolher as palavras, enviadas desobedientemente, pelo coração.
Em sessenta batimentos cardíacos, a resposta chega.
E a impotência diante do tal aparelhinho
arranca suspiros de saudades do papelinho perfumado,
do envelopinho com as bordas coloridas, da estrada, do burrico, da pracinha,
e da certeza em escrever aquelas doces palavrinhas.
Certeza que só uma madrugada inteira,
debruçado em uma velha e encardida mesa rústica de cozinha,
à luz de lamparina, é capaz de dar aos enamorados,
na peleja romântica de escrever uma Cartinha de Amor!
Lucelita Maria - Ten Cel BMTo
Membro da Academia Palmense de Letras – Cadeira 19 – Patrono Casimiro de Abreu, Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do DF – ALMEBRAS, Cadeira 25 e Academia de Letras, Ciências e Artes dos Militares Estaduais do Tocantins – ALCAM-TO, Cadeira 2, em ambas, Patrono Manoel Odir Rocha. É sócia correspondente na Academia de Letras do Norte Tocantinense – ACALANTO e Academia Goiana de Letras, Ciências e Cultura dos Militares do Estado de Goiás – AGL-MB, e associada à União Brasileira de Escritores – UBE/GO

3 comentários:
Oi Lita! Gostei do seu estilo de escrever! Escreve fácil! De forma direta e fala daquilo que vivemos, num lirismo gostoso dese ler!
Parabéns! Uma honra ter uma publicação sua no blog da AGL-MB
Mais um primor em forma de prosa e verso, trazendo o bucólico do campo, confrontando a dinâmica do desenvolvimento como o algoz que derruba o romantismo de uma vida desejada, por quem já esteve neste cenário, como eu, que ainda escrevi e recebi resposta ansioso, daquele primeiro amor. Realmente, lembrando disto, através de suas palavras, não sabíamos o que era melhor: "a espera,ou a resposta". Parabéns minha Confreira Vice-Presidente da ALCAM-TO.
Lucelita é uma mulher sensacional, inteligente, extremamente gentil e prestativa. Que honra tive em poder compartilhar momentos com ela. 🫶🏻
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