quinta-feira, 2 de maio de 2024

DISCURSO DE POSSE NA CADEIRA Nº 01 CORONEL PM GETULINO ARTIAGA LIMA NA SOLENIDADE DE INAUGURAÇÃO DA ACADEMIA MILITAR GOIANA DE LETRAS

Dirijo meus cumprimentos às senhoras acadêmicas, senhores acadêmicos anhangueras e confrades de outras unidades: nacional e subnacionais.

Minhas senhoras, meus senhores...  

Ao preparar um texto sobre nossa promessa de trabalho à frente da Academia Goiana de Letras dos Militares dos Goianos, ao passo me veio, uma frase de um dos maiores patriotas, o eminente escritor modernista Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”. 

Assim disse Euclides: “Não sendo esta investidura uma consagração, mas um tácito compromisso de altear-se por outros trabalhos até a vossa nobilitadora simpatia, imaginai os meus desalentos diante de uma tal empresa”.

 

Voltei duas vezes às palavras de Euclides e nelas encontrei a expressão exata do meu sentimento em relação à tarefa que recebi das vossas mãos, para realizar durante estes dois anos, ao lado dos ilustres confrades que me deram a honra de compor a presidência. 

Ao pleitear tal incumbência, embora os desalentos de Euclides também rondem meu espírito, permaneço, pleno de júbilo agregado à gratidão pela confiança que em mim fora depositada pela aceitação de estarmos hoje, nesta bela noite de novembro, reunidos na certeza de que, ao receber vossas manifestações de confiança, celebramos convosco um compromisso de trabalho, enobrecedor e honroso, mas também a exigir dedicação, responsabilidade, imaginação e empenho. 

Obrigado queridos confrades e confreiras!

Prometo corresponder as vossas expectativas! 

Meu primeiro dever é falar um pouco sobre aquele que empresta seu nome a esta casa de letras, o ex-governador coronel Mauro Borges Teixeira, aqui representado pelos já nominados filhos e netos. 

Obrigado pela presença novamente! Mauro Borges Teixeira foi um militar e político brasileiro filiado ao Partido Progressista (PP). 

Em Goiás, foi governador, senador e deputado federal. Era filho do também político Pedro Ludovico Teixeira e de Dona Gercina Borges Teixeira. 

Ele cursou a Escola Militar do Realengo e a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. O maior posto que atingiu na hierarquia do Exército Brasileiro foi o de tenente-coronel, sendo promovido a coronel quando foi para a reserva. 

Iniciou sua carreira política em 1958, quando foi eleito deputado federal por Goiás. Em 1960, foi eleito governador do estado, cargo que seu pai já exercera dezessete vezes entre 1930 e 1954, como interventor de Getúlio Vargas. Foi afastado por intervenção federal após o golpe de 1964, tendo seus direitos políticos cassados em 1966. 

Voltou ao cenário político em 1979, quando foi eleito presidente regional do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Em 1982, foi eleito senador pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e, em 1990, novamente deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC), que fora fundador. 

Uma década depois, em 1993, como deputado federal, Teixeira foi admitido pelo presidente Itamar Franco à Ordem do Mérito Militar no grau de Comendador especial. Mauro Borges enquanto governador de Goiás e sendo militar com curso de Estado Maior do Exército instituiu o Plano Mauro Borges. 

Para auxiliá-lo, contratou uma equipe formada pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. No seu governo, foi criada a Secretaria do Planejamento e, anos mais tarde, o Governo Federal criou o Ministério do Planejamento e Orçamento. 

Em seu governo, foi montada uma administração ágil e operante, criou os concursos públicos, nos quais os funcionários eram contratados pelos seus méritos, esse foi um de seus grandes feitos, pois tudo funcionava e bem. 

Criou o Consórcio Rodoviário, um fundo de reservas financeiras para viabilizar as construções de estradas, com isso viabilizou a construção de 11.000 km de estradas. 

Mauro Borges colocou Goiás no cenário econômico nacional, promovendo o crescimento das fronteiras econômicas por meio da retomada da Marcha para o Oeste e a implantação de uma reforma agrária que teve como o modelo os kibutz de Israel, organizados a partir da produção cooperativa. 

Além do Plano Mauro Borges, como era chamado seu projeto para integrar o Estado de Goiás no cenário econômico nacional, o coronel Mauro Borges realizou também a conclusão do Aeroporto Santa Genoveva, da Usina Rochedo, da Usina de Cachoeira Dourada e a ampliação e reestruturação da Companhia Energética de Goiás (CELG). 

Meu segundo dever é falar dO patrono-príncipe desta novel Ordem. 

Evidentemente, por ser fundador da Cadeira nº 1, cujo patrono é o Coronel Getulino Artiaga Lima, terei muitas oportunidades para me aprofundar sobre sua belíssima biografia. 

Na entrada do espaço mais nobre e importante da antiga sede da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás estava estampado seu nome: Getulino Artiaga nomeava o plenário, ambiente onde, diariamente, eram tomadas as mais importantes decisões que refletem na vida de todos os goianos. 

Mas o nome do coronel Getulino Artiaga Lima extrapola os limites da Casa de Leis. 

Ele, ex-deputado estadual, fez história em Goiás como parlamentar constituinte goiano e integrante da primeira Legislatura da Casa, após o fim do Estado Novo. 

Sua história também ficou marcada por sua morte trágica, em 1950. Ainda no exercício do primeiro mandato, o parlamentar foi assassinado com 18 tiros após desentendimentos entre udenistas e pessedistas, durante um comício na cidade de Nova Aurora. 

A morte precoce do então deputado abriu a oportunidade para que o Parlamento goiano tivesse a sua primeira representante do sexo feminino, sua esposa Berenice Teixeira Artiaga, que o substituiu na chapa em que disputava como candidato à reeleição. 

Um documentário feito pela TV Alego conta que a atuação como oficial da Polícia Militar, especialmente nas operações para conter as manifestações contra a transferência da capital para Goiânia, o aproximou de Pedro Ludovico Teixeira. 

A convivência com o interventor do Estado acabou levando Getulino Artiaga, também para a vida política. Na transferência da sede da Assembleia Legislativa para onde estamos, o coronel Getulino Artiaga Lima, bem como os militares goianos, perdeu a prestigiosa homenagem. 

A Academia Mauro Borges retoma, neste instante, na sede do próprio Poder Legislativo Goiano, a referida homenagem. Faz isso ao credibilizar por seu patrono príncipe, nosso saudoso coronel Getulino Artiaga Lima. 

Peço assim uma salva de palmas a esses heróis da história de Goiás: Coronel Mauro Borges Teixeira e Coronel Getulino Artiaga Lima. (...) 

As senhoras e os senhores ainda hão de reparar que, no parágrafo a ser divulgado da lista das atividades culturais de 2024, omiti a celebração em torno das dezenas de posses acadêmicas que faremos, momento em que o acadêmico terá os holofotes do reconhecimento voltados para si como fundador e protetor da memória de seu patrono. 

A Academia vai sim comemorar de forma digna as ascensões de seus membros em datas oportunas. 

Antes de terminar, gostaria de citar outros dois escritores que nunca conheceram a glória, mas que realizaram seus trabalhos com dignidade e dedicação. 

Um deles jamais sonhou que um dia seu nome seria pronunciado nesta tribuna, e talvez alguns considerem isso uma contradição, mas não posso deixar de passar a oportunidade: trata-se de José Mauro Vasconcellos. Jamais li um livro seu, mas não posso perder este momento único para agradecê-lo por ter levado seu trabalho aos quatro cantos do mundo, ajudando a mostrar às mais diferentes culturas o que existe na alma intensa e comovente do povo brasileiro. 

O outro escritor, um professor de matemática, escondido atrás de um pseudônimo misterioso, povoou minha imaginação infantil com lendas do deserto, dos céus e da terra, das mil histórias sem fim que o povo árabe conta, e que, mais tarde, estariam na gestação de meu livro mais conhecido: “O Alquimista.” Trata-se de Júlio César de Mello e Souza, conhecido por todos os seus leitores como Malba Tahan. 

É de sua autoria a história que agora narro, com minhas palavras, e que tão bem reflete a frase de São Paulo de Tarso, eis: “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será salvo”. 

Passo à história:

“Na antiga Roma, na época do imperador Tibério, vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos: um era militar e quando entrou para o exército foi enviado para as mais distantes regiões do Império. O outro filho, versado em letras, se tornou um poeta famoso, que encantava Roma com seus versos. 

Certa noite, o homem teve um sonho. 

Um anjo lhe aparecia para dizer que as palavras de um de seus filhos seriam conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as gerações vindouras. Acordou agradecido e chorando, porque a vida era generosa, e havia lhe revelado uma coisa que qualquer pai teria orgulho de saber. Pouco tempo depois, morreu ao tentar salvar uma criança que ia ser esmagada pelas rodas de uma carruagem. 

Como tinha se comportado de maneira correta e justa em toda a sua vida, foi direto para o céu, e encontrou-se com o anjo que lhe aparecera em sonhos. 

-Você foi um homem bom, disse-lhe o anjo.

- Viveu sua existência com amor, e morreu com dignidade. Posso realizar agora seus desejos.

- A vida também foi boa para mim, respondeu o homem. 

- Quando você me apareceu em sonho, senti que todos os meus esforços estavam justificados. Porque os versos de meu filho serão passados de geração em geração. Nada tenho a pedir para mim; entretanto, todo pai se orgulharia de testemunhar a imortalidade de alguém que ele cuidou quando criança e educou quando jovem. 

O anjo tocou em seu ombro, e os dois foram projetados para um futuro distante. Em volta deles apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas, que falavam uma língua estranha. 

O homem chorou de alegria.

- Eu sabia que os versos do meu filho eram bons e imortais, disse ele para o anjo, entre lágrimas.

- Toda Roma se encantava com eles e sei algumas de suas poesias de cor, gostaria que me dissesse qual delas estas pessoas estão repetindo.

- Os versos de seu filho poeta foram muito populares em Roma, disse o anjo.

- Todos gostavam, e se divertiam com eles. Mas, quando o reinado de Tibério acabou, seus versos também foram esquecidos. Estas palavras são de seu filho que entrou para o exército. 

O homem olhou surpreso para o anjo, que continuou:

- Seu filho foi servir num lugar distante. Era também um homem justo e bom. Certa tarde, um dos seus servos ficou doente, e estava para morrer. Seu filho, então, ouviu falar de um Rabi que curava os doentes, e andou dias e dias em busca daquela pessoa. No caminho, descobriu que o homem que procurava era o Filho de Deus.

- Encontrou outras pessoas que haviam sido curadas por Ele, aprendeu seus ensinamentos, e, mesmo sendo um soldado romano, converteu-se ao seu credo.

Até que certa manhã chegou perto do Rabi. Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi se prontificou a ir até sua casa. Mas o centurião era um homem de fé, e olhando no fundo dos olhos do R abi, disse não ser necessário. 

O anjo tornou a mostrar as pessoas e, de repente, todas se levantaram:

- Estas são as palavras do seu filho soldado, disse o anjo ao homem.

São as palavras que ele disse ao Rabi naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas: “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será salvo”.

Senhoras e senhores, recentemente, ouvimos de João Ubaldo Ribeiro, pela Academia Brasileira de Letras, um inesquecível depoimento da sua vida de escritor, no qual confessou a grande tristeza de não ter tempo para aprender grego e ler as odes pindáricas no original. 

Nesta queixa, o grande romancista expressava todo o desespero do ser humano ávido por expandir o conhecimento, diante do oceano de saber ignorado.

O desespero, portanto, diante da própria ignorância. O autêntico ignorante é aquele que sabe quão vasto é o campo de tudo o que ele ignora.

O ignorante que não se reconhece como tal, ignora tão completamente que ignora até que nada sabe, infelizmente.

Se me permitem uma paráfrase de Fernando Pessoa: Confesso! Ignorante, para mim o grego também é grego e só reconheço os prefixos que nos ficaram de algumas palavras. Mas na tradução de um texto de Platão recolhi o seu seguinte conselho: “Devemos aprender durante toda a vida, sem imaginar que a sabedoria vem com a velhice”. 

Minhas senhoras e meus senhores...

Assumo esta presidência pensando na frase encontrada em monumental escultura de Francisco Brennand na sua vasta oficina no Recife. 

A frase, do hoje injustamente esquecido escritor italiano Carlo Lévi diz o seguinte: “O futuro tem um coração antigo”. 

O futuro desta Academia Militar de Conhecimento de nada valerá se o coração desta Casa não bater no compasso herdado dos antigos, dos nossos patronos, fundadores e antecessores. 

É nesse ritmo e nesse rito, na sequência dos exemplos que recebemos dos que homenageamos por esta Casa, que se construirá um futuro do qual as gerações sucessoras poderão se orgulhar do que fizemos, da mesma forma que hoje nos orgulhamos do passado.

Os antigos deixaram uma herança preciosa de trabalho por este Estado de Goiás, servindo-o sem dele nada exigir.

 Assim continuamos e continuaremos, com o coração forte, voltado para o alto, coração antigo e à moda antiga, brando com os brandos, mas duro com os duros, para continuar escrevendo as páginas da mais bela história da cultura goiana. 

Muito obrigado!!


Goiânia,10 de novembro de 2023

José Lemos da Silva Filho - Coronel PM

Acadêmico Fundador da Cadeira  nº 01


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