quinta-feira, 2 de maio de 2024

DISCURSO DE POSSE NA CADEIRA Nº 20 PIO VARGAS ABÁDIO RODRIGUES, DA ACADEMIA MILITAR GOIANA DE LETRAS

Senhoras senhores, boa noite!

Quero cumprimentar inicialmente o senhor Coronel José Lemos da Silva Filho, mui digno Presidente da Academia Goiana de Letras Ciências e Cultura dos Militares do Estado de Goiás - Coronel Mauro Borges Teixeira;

De forma especialíssima quero cumprimentar o senhor Rafael Vargas, filho do poeta Pio Vargas, que muito gentilmente aceitou meu convite para aqui se fazer presente.


Senhoras e Senhores Acadêmicos, 

Meus familiares, 

Amigos e demais convidados, 

Minhas senhoras e meus senhores, 

Gostaria de expressar em quatro linhas, ou quatro caminhos de pensamento esse meu discurso de posse.

No primeiro, quero inicialmente, partilhar com cada um dos presentes, que neste momento, me concedem o prazer da companhia e a honra do comparecimento a esta solenidade de posse, a fim de possam melhor conhecer, não apenas a pessoa do coronel QOPM Alves, mas também a do Divino, filho do serralheiro Alamburgo e da dona Maria, casado com a Valéria, pai do Lucas Henrique, do Matheus Filipe e da Maria Eduarda, sogro da Thayane e avô da Aurora e da Cora.

Importante dizer também que, embora distintos enquanto pessoas, tanto o Cel Alves, quanto o Divino coabitam de forma harmônica no mesmo invólucro,  e se completam na construção do homem todo que se apresenta.

Peço, que busquem conhecer não só a uma dessas minhas facetas, quer seja o Alves ou o Divino, mas a ambas, e assim conhecerem também um pouco da minha jornada, das minhas experiências, dos meus sonhos e do meu pensamento, na esperança de que tal conhecimento, possa contribuir para o enriquecimento de nossas partilhas e de nossas reflexões, uma vez que ora passo a compor como integrante, os quadros da Academia Goiana de Letras Ciências e Cultura dos Militares do Estado de Goiás, e o faço, com todas as minhas metades.....

Na segunda linha, manifestar minha alegria, gratidão e compromisso, por ter sido escolhido pelos membros fundadores da Academia, para fazer parte da sua história, e ocupar como fundador, uma de suas honrosas cadeiras.

Na terceira, apresentar a figura multifacetada do Menestrel das Palavras, o Poeta Pio Vargas, Patrono da Cadeira de número 20 da Academia.

E, na última, expor meus agradecimentos e considerações finais.

Destarte sejam quatro momentos de explanação, prometo não ser chato e cansativo, pois sei que as palavras pertencem tanto ao falante quanto ao ouvinte, e ambos contribuem para a sua significação e impacto na comunicação, mas é importante lembrar que comunicação não é aquilo que se fala, mas o que o outro entende.

Essa frase reflete a natureza da comunicação como uma troca mútua entre quem fala e quem ouve. Quando alguém fala, ele escolhe suas palavras com base em sua própria perspectiva, experiências e intenções.

No entanto, o significado das palavras é co-construído durante a interação, sendo moldado pela interpretação e compreensão do ouvinte, e não tem nada mais chato que ouvir um PHD. Explico...PHD papo horrível e demorado.

Assim,  que a construção da nossa partilha aqui, seja um papo calmo, sereno e tranquilo..

Caminhemos então...

Desde já, embora esteja eu a tomar posse e a ocupar a cadeira, cujo Patrono é Pio Vargas, afirmo de plano, que não sou poeta, pois ser poeta é enxergar o mundo com olhos sensíveis e expressar essa visão através das palavras, criando versos que tocam a alma e despertam emoções.

Ser poeta é capturar a essência da vida, da natureza, dos sentimentos e das experiências humanas, e expressá-los em formas artísticas...

E, definitivamente Deus em sua infinita Misericórdia, não me agraciou com tal dom.

Assim, reafirmo que…

Não sou um poeta que busca em estrofes, rimas e versos, transformar palavras em sentimentos...

E, mesmo que o exprimir a vida através do lirismo, das ideias; me fascine ao extremo, não sou poeta, nem tampouco um filósofo, que embora aponte para o sair da caverna e fora dela,  deseje encontrar a luz da razão, se perde as vezes em teorias abstratas sobre o sexo dos anjos; na análise e investigação de conceitos, verdades e razões de forma mais lógica e argumentativa.

Poeta? Poeta era Pio! E eu? O que sou então? 

Ahhh...! Eu sou apenas um ser que absorto em angústias, e dúvidas e questionamentos, ousa pensar e agir e também a sonhar, livre de amarras, mas sem que só a isso se ocupe, pois no teatro da vida que a mim se apresenta, não posso permanecer em estado de letargia ou inércia ante as coisas que me cercam.

Quero ser o Semeador de uma nova visão social e mesmo nas minhas inconstâncias, buscar entender o que move as pessoas,  a serem o que não são...

Quero buscar, a exemplo de Pio Vargas, o meu próprio Despertáculo, rompendo com padrões pré-estabelecidos, conquistando minha liberdade, aceitando a vida com suas batalhas e desafios, mas sem fios... sem amarras...

sem manipulações na minha batalha de autoconhecimento e autodescoberta, ao enfrentar os meus desafios no dia a dia.

Pois o verdadeiro espetáculo está no despertar interior de cada indivíduo, na descoberta e na conexão com suas próprias emoções, pensamentos e experiências, como bem se expressou Pio Vargas, no seu poema Despertáculo...

 "Estou pronto

para a guerra que encontro

quando acordo:/

botei vigia nos sentidos

e iludi com comprimidos

outros seres a meu bordo./

Abandonei o vício

de estar sempre

a soletrar ruínas,/

dei liberdade a meus detentos/

minha pressa diluiu nos passos lentos

e rasguei meu calendário de rotinas./

Inverti a ordem./

Já não saio por aí a devorar compromissos,/

tomei posse no governo de mim mesmo

e derrotei os meus omissos./

Venci a batalhas de ter que estar sempre por perto,/

às vezes voo para dentro do meu sonho a céu aberto./

Estou pronto:/

Eu já concordo com a guerra que encontro quando acordo. / "

Profundo não? Assim era Pio...instigante!

Ao assumir esta cadeira, senhoras, senhores e excelentíssimos membros da Academia de Letras, /na aura do saber, me vejo imerso,/ e com profundo orgulho em letras eternas, minha gratidão ecoa e aqui a expresso,/ neste momento tão significativo para mim, comprometendo-me a dignificar a tradição e os valores que cada um dos patronos das cadeiras,  representam para a sociedade goiana e de maneira particular à Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar de Goiás.

Quero me dirigir de forma muito especial aos membros Fundadores da AGL, na pessoa de seu presidente, agradecendo-lhe a oportunidade de estar entre pares reais, assegurando que buscarei honrar esta cadeira com dedicação, valorizando as diferentes formas de expressão que enriquecem o nosso patrimônio literário, científico e cultural. 

Senhoras, senhores, após esses dois pequenos prelúdios vamos, agora, e  finalmente, à uma apresentação mais aguçada daquele que em virtude da grande expressão de sua obra, é o Patrono da Cadeira 20, da qual hoje me aposso, graças a indicação por parte dos membros fundadores de nossa Academia de Letras Mauro Borges.

Refiro-me com muita honra ao poeta goiano, Pio Vargas Abadio Rodrigues, natural da minha cidade do coração, Iporá.

Antes de discorrer de forma mais íntima sobre a obra desse multifacetado e iluminado ser, devo dizer que, infelizmente, não tive a honra de conhecê-lo em vida, como o conheceu o poeta e advogado Edival Lourenço, Ruy Junior,  Carlos Willian Leite; João Batista Perez, Vilton Pereira, Olivio Lemos, Major Edno, minha esposa Valéria, Joao Aquino, Waldir Gomes, Hozaná Malaquias, Bira, Ademir, Cecilia Mello, Dra Rosangela Magalhães, Zé Humberto, Zuleide, Professor Lázaro Faleiros, Dr Elias, Marconi Perillo e tantas outras pessoas.

Eu, de Pio, sei apenas, o que sua obra me revela, pois dia dia,

Devoro seus poemas!/

Rumino seus versos!/

Inspiro da sua essência/

Exalo seus sentimentos!/

Embriago minh'alma e me encanto com sua singularidade.

Pio se definiu em seus versos como sendo um poeta nas horas vagas e que sendo um, /foi quase mil,/ conforme retrata em seu poema intitulado 999 ou, concepção tumular pra que ninguém alegue ignorância.

"Quando eu morrer escrevam no meu túmulo:

aqui dorme pio que era poeta nas horas vagas./

O que distanciou de tudo pra continuar mudo/

 com suas amarras/

Aqui dorme alguém que era de todos/

e pertenceu a ninguém/

que imaginava muito/

mas só tinha um corpo/

que casualmente se tem/

que fazia poemas/

só para esquecer os dilemas/

do que era um e quis ser cem./

Pensando bem/

escrevam mais:

aqui dorme pio/

o que em sendo um/

foi quase mil./"

Lindo não? Era assim, de forma intensa que ele se expressava, apresentando uma reflexão profunda sobre a identidade e a busca por significados na vida.

A conclusão dessa poesia reforça a dualidade, sugerindo que mesmo sendo apenas um indivíduo, possui uma multiplicidade de facetas e experiências que o tornam quase infinito em sua complexidade.

Mas quem foi Pio Vargas?

Em uma de suas facetas, a biográfica, tem-se que Pio Vargas Abadio Rodrigues, nasceu na cidade de Iporá, em 7 de setembro de 1964, e faleceu na cidade de Turvelândia, no dia 8 de março de 1991, aos 26 anos, vítima de uma overdose de cocaína.

Depois de amanhã, dia 8 de março, completará 33 anos de sua prematura morte.

Pio cursou apenas o Primeiro Grau na Escola Elias de Araújo Rocha, ainda em sua cidade natal.

Permitam-me aqui trazer, à luz de todos, para um início do conhecimento da pessoa de Pio Vargas, um texto de um grande amigo de Pio e meu amigo também, o Iporaense Ruy Junior, com o título Pio Vargas , o Menestrel das Palavras:

"Em 7 de setembro, em um pequeno distrito conhecido como “Cruzeirinho”, comprimido entre Iporá e Amorinópolis, estreou um Pio.

Sob o brilho das constelações de virgem, ladeados pela poderosa e sedutora Vênus, impulsionado pelo Deus Marte, o tecido do silêncio luminoso se rompeu, nasce o Pio como uma escultura do acaso.

A cidade ainda agitava-se pelos sons ásperos de 31 de março de 1964, flâmulas verdes e amarelas singravam as ruas de Iporá, e o rufar dos tambores belicosos caminhavam pelo ar, e nasce o menestrel das palavras, trazendo em si o dom de transformar sensações em pensamentos e “verbeá-los” em composições escritas.

Pio Vargas ainda criança, se estabelece em Iporá e dá início ao frequentar das escolas. Começou cedo a claudicar pelas ruas com a difícil tarefa de ajudar a complementar o sustento familiar, trabalhando como engraxate, picolezeiro e exercendo outras atividades que lhe rendessem a sobrevivência. Mesmo com essas dificuldades ele nunca deixou de portar o facho da esperança, da fé e da coragem de continuar vivendo e carregando em sua mente brilhante a criatividade e a genialidade.

Esvaem-se as horas na ampulheta da vida, e Pio caminha para uma pré-adolescência contaminada pelos absurdos de seu destino, ainda bem jovem, ele servia atrás dos balcões de farmácias e foi aí que, em função das suas dores da alma e de uma realidade horrível, incompatível à sua grandeza de alma, buscou equivocadamente aventurar-se a fugir mergulhando nas seringas, bulas e ampolas.

Na adolescência, Pio Vargas foi apresentado para um grupo de jovens de Iporá que estavam trabalhando em busca da redemocratização e de mudanças significativas nos aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos do país, e nesse espaço, Pio Vargas acessa o ambiente que lhe proporciona as informações e o conhecimento necessário para dar o start ao seu ímpeto e a sua sanha literária, essa foi a luz necessária que atuou como farol na sua jornada poética.

Pio Vargas um estudioso empedernido, dedicado e focado, foi se construindo e crescendo, contribuindo de forma extremamente importante para composição dessa realidade que essa juventude sonhava e construía, ele tinha como base, em sua filosofia de vida que “quem acredita no futuro, luta no presente”.

Em seguida, Pio muda-se para Goiânia, dando continuidade ao seu movimento e desempenho artístico. Ainda muito jovem, atuou de forma impecável na cultura de Goiás, o que lhe rendeu homenagens como a nomeação da Biblioteca Estadual de Goiás e a Biblioteca da UEG do campus Iporá. Fez a diferença com seu brilho e sua mente aguçada e criativa, fazendo da noite, dia, na arte goiana, deixando rastros luminosos com sabor de palavras. 

Pio Vargas transformava seus sonhos em realidades, materializando suas ideias em palavras que desenhavam a anatomia dos gestos de sua alma.

Pio segue contribuindo para a sociedade iporaense, goiana e brasileira, e mesmo sendo jovem, ele influenciava a literatura na américa latina.

Mas por acaso, no ocaso de seus acasos o tear das tramas da vida, teciam no seu destino os novelos do acaso, mesmo assim afagando efêmeros ofícios como fuga indelével, colapsou nas molduras de si mesmo no dia 8 de março de 1991.

Iluminado de futuro no presente, abria as janelas do espontâneo. Atuou como jornalista, produtor artístico, publicitário, articulista e um excelente amigo. Momentos perto do Pio eram repletos de emoções leves, construtivas, criativas, engraçadas e lúdicas.

Ainda sentimos por aí, no silêncio de um Pio, um bradar de que “mesmo sendo um, foi quase mil”. E sua lápide inexiste ainda aguarda por essa frase.

E aqui jaz Pio, poeta nas horas Vargas."

Segundo Carlos Willian Leite, em sua obra Pio Vargas, poesias completas, assinala que: "Pio Vargas seria o maior poeta de seu tempo. Mas morreu antes dele. Na manhã de 8 de março de 1991, Pio Vargas sofreu uma parada cardíaca, causada por uma overdose de cocaína. Tinha 26 anos e era apontado pelo poeta Paulo Leminski, como um de seus sucessores."

Para o grande poeta paranense, Paulo Leminski: "Pio Vargas tem um “eu” coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético."

O poeta Edival Lourenço, ressalta sobre Pio Vargas  que "Sua poesia é densa e trágica, própria de quem traz pela vida uma agonia congênita, irremediável, desenganada, de quem chama para si as cólicas do mundo e lhes concede uma roupagem de alto requinte."

Ainda segundo Edival Lourenço "Pio era ainda um garoto estudante do ciclo básico, aluno da entusiasta professora de Português Laurinda Barbalho, responsável pelo acompanhamento de suas primeiras criações poéticas. Depois daquele dia  (em que se conheceram), eram bastante frequentes suas passadas em minha casa, ocasiões em que demonstrava cordialidade e gentileza comigo, com meus filhos e minha mulher. Mas o que ele interessava de fato era falar de Literatura e ter acesso aos livros de minha biblioteca que, apesar de não ser grande, era uma das mais selecionadas que havia em Iporá, à época".

Segundo Yago Sales "Pio Vargas era muito atrevido. [...]. Atrevido mesmo. Desafiava a  rigidez mercadológica do cenário cultural da época e ansiava levar cultura por todo o estado. Ele compunha a Secretaria de Cultura, no governo Henrique Santillo. Aproveitou que o governador era um apaixonado pelas letras e assistiu à instalação de 80 secretarias de cultura pelo estado. Viajava, lembra Brandão, organizando saraus, shows e festas literárias por Goiás. Pio era, sobretudo, um viajante. Sua poesia eleva nosso pensamento aos confins. Pio Vargas era presidente do PMDB goiano e chegou a dividir palanque com o deputado constituinte Ulisses Guimarães."

Sobre Pio, Ademir Luiz, na apresentação do Livro Pio Vargas, poesia completa, nos diz que "Pio Vargas foi poeta de muitos temas, mas alguns ele perseguiu repetidamente ao longo de sua produção, o estranhamento ao mundo, uma visão não condescendente do amor assim como resistência à mediocridade,  o combate ao provincialismo,  o elogio do caos,  os limites do corpo e da alma e sobretudo a obsessão pela morte,  apontada às vezes como solução."

Ainda segundo Ademir, Pio Vargas "Promovia os mais diversos eventos, desde concursos e recitais de poesia até festivais de música. Colaborou no periódico “Espaço Livre”. Coordenou o Varal de Poesia da UBE-GO. Em parceria com o artista plástico Edney Antunes, criou o Projeto GraffitiPoemas, espalhando murais multicoloridos, salpicados com versos, pela cidade. Além de produzir e participar como jurado, frequentemente concorria em concursos de poesia falada. Era conhecido como um ótimo recitador, sabendo dosar muito bem a entonação da voz e o ritmo dos versos. Seu principal projeto foi a criação das Edições Divagar e Sempre, também chamadas de PN, Porranenhuma, feitas em fotocópias preto e branco, com o objetivo principal de divulgar novos valores nas letras do Estado. Eventualmente, publicava textos de sua lavra. Muitas vezes dividindo autoria. Pio Vargas foi um poeta e sujeito ímpar pelas disparidades."

Como vimos, Pio era multifacetado!!!

Além de publicações avulsas, Pio escreveu os livros Janelas do Espontâneo (1983); Anatomia do Gesto (1989); e Os Novelos do Acaso (1991), esse último publicado postumamente, e teve ainda em 2009, sua Poesia Completa,  reunida e publicada por Willian Leite, nesse pequeno livro (mostrar o livro) que recomendo, todos possam nele se deleitar.

Diante do testemunho de tantos,  absolutamente necessário se faz, conhecermos o poeta Pio Vargas e aos poucos descobrirmos o seu "Eu Lírico".

Mas... o que significa a expressão eu lírico?

Eu Lírico é a voz poética que se manifesta nos poemas, representando o ponto de vista, as emoções e as experiências do autor. É como se fosse o "eu" ficcional ou poético que fala através dos versos, muitas vezes expressando sentimentos, pensamentos e observações que podem ou não refletir diretamente a vida do autor.

Em resumo, é a persona poética criada pelo escritor para transmitir sua mensagem artística.

Nesse diapasão, temos que o "Eu lírico" de Pio Vargas, presente em seus poemas, reflete uma sensibilidade profunda em relação às experiências humanas, emoções e reflexões sobre a vida.

Seu eu lírico é introspectivo, melancólico, romântico e até mesmo político, refletindo assim uma riqueza de experiências e perspectivas, e por isso, Pio Vargas pode ser descrito como um poeta multifacetado, pois sua obra abrange uma variedade de temas, estilos e emoções.

Seus versos frequentemente exploram temas como amor, solidão, saudade e o fluir do tempo, usando uma linguagem que evoca imagens vívidas e emoções profundas. Seus versos, assemelha-se  a uma voz que convida o leitor a mergulhar nas paisagens interiores do poeta e a refletir sobre questões fundamentais da existência humana, utilizando para tanto,  uma linguagem poética que busca conectar-se com o leitor em um nível emocional e introspectivo, conforme podemos não apenas ler, mas sentir, sorver isso,  em seu poema Sucessão.

"Depois que eu voltar de dentro das molduras/

apago os meus retratos/

invento outras figuras/

convoco os meus fantasmas/

convido mil demônios/

e dou posse a todos eles/

no governo dos neurônios./"

Já quase finalizando minha fala, cumpre-me aqui parabenizar a Academia de Letras dos Militares Estaduais de Goiás, na pessoa de seu Presidente Coronel Lemos, pela brilhante iniciativa de dedicar o ano Cultural  de 2024, em homenagem ao poeta Pio Vargas.

Após conhecermos aqui, mesmo que brevemente, além de sua biografia, suas outras facetas, fica fácil entender os motivos que levaram nossa Academia de Letras, a dedicar o ano da graça de 2024, como sendo o ano Cultural Pio Vargas, período de tempo em que suas obras serão destacadas e celebradas através de eventos, premiações e publicações específicas.

Tal homenagem é extremamente justa, uma vez que a obra de Pio possui impacto significativo na literatura goiana e nacional; sendo dotada de  originalidade/ qualidade/relevância cultural;/ longevidade/ e duradouro legado./

A Academia de Letras dos Militares, ao dedicar  o seu primeiro  Ano Cultural  em homenagem ao poeta Pio Vargas, reconhece sua contribuição para a arte literária, e atua no sentido de preservar e promover o legado de tão insigne poeta às gerações futuras. 

Assim, no pulsar das palavras e na cadência dos versos, a Academia Goiana de Letras dos Militares aquece nossos corações em reverência ao imortal Pio Vargas, cuja alma de poeta continua a ecoar através dos tempos, mesmo passados 33 anos de sua morte.

Ao celebrarmos o Ano Cultural Pio Vargas, é impossível não mergulhar nas profundezas de sua obra, onde cada poema é um universo de sentimentos entrelaçados.

Pio Vargas, mestre das rimas e das metáforas, nos conduz por paisagens emocionais que transitam do êxtase à melancolia, da esperança à desilusão.

Sua pena, delicada e incisiva, desnuda as complexidades da condição humana, revelando um Eu lírico multifacetado, capaz de abraçar todas as nuances da existência.

Nas linhas de seus versos, encontramos a essência da alma humana, capturada em imagens vívidas e sonoras.

Seus poemas são um convite à reflexão, um espelho no qual nos confrontamos com nossos próprios anseios e dilemas.

Como um artesão da linguagem, Pio Vargas esculpe a matéria-prima das emoções e dos sonhos, transformando-as em versos que ecoam pela eternidade.

Neste Ano Cultural de 2024, ao celebrarmos os 33 anos de sua partida, erguemos nossas vozes em louvor a esse gigante da poesia, cuja influência transcende as fronteiras do tempo e do espaço.

Tenho certeza absoluta que será uma jornada de redescoberta e celebração, onde as palavras de Pio Vargas continuarão a inspirar e a emocionar gerações futuras, como um cometa na vastidão do universo literário.

Já no ocaso da minha partilha neste meu discurso de posse,  quero saudar meus novos confrades que hoje tiveram suas nomeações anunciadas: Sejam todos muito bem-vindos. Temos uma história a construir.

Ainda sobre a pessoa de  Pio Vargas, Ademir Luiz, na apresentação do Livro,  Pio Vargas, poesia completa, organizado por Carlos Willian Leite, nos diz que "Em dia incerto de julho de 1989, Pio Vargas escreveu uma longa carta de despedida aos incontáveis amigos e familiares. Os cita nominalmente.  Dezenas de nomes. Agradece a alguns,  pede perdão a outros.  Escreveu que  (aspas) eu gosto de pedir perdão,/ e como gosto. Sim, porque o perdão não repara o erro, mas restaura certeza de que é possível acertar da próxima vez."

Quero partilhar ainda,  uma mensagem que recebi do Dr Elias, médico na cidade de Iporá, na segunda-feira, ainda bem cedinho:

"Este poema, Ponto Final, me foi entregue por Pio Vargas, logo antes da sua morte...

O poema fala do suicídio de Maiakovski, maior poeta russo...

No final da semana, sua mãe veio me avisar do que aconteceu em Turvelandia.

Preciso falar mais?

Só resolvi publicar este poema com o titulo de Ponto final, depois de conversar, com o filho de Pio, o Rafael Vargas."

"Respostas?? /A  pergunta não foi feita ainda./

Dorme, embriagado de parágrafos o texto:/

crônica mal feita querendo falar de túmulos partidos

em cemitérios inexistentes/

Conto inacabado, lentamente desmoralizado e.... deitado em berço esplêndido, nos tantos Brasis, orgulhosos pendões?/

 O poema tenta descrever a tarde, entretanto o sol se foi./

Restou apenas um ponto minúsculo infiltrado na distância,  Equidistante infinito e além./

Ponto final finalmente./

Miakovski  suicidou-se./

No velório solicitárias palavras sem pontos, sem finais./

Vou, passo a passo, iludido procurando um verso maior. Dissolve-se o poema em milhões de fonemas./

Ponto final./"

Finalizo aqui minha fala, e parafraseando Pio, agradeço a você que suportou me suportar em cada parágrafo, deixando, uma última poesia, extraído do livro Pio Vargas, poesias completas, organizado pelo Carlos Willian Leite:

"Considerações Necessárias: É preciso tirar a poesia da clausura dos concursos,/ das gaiolas do acaso, /do exílio das gavetas/, trazê-la para o sabor do consumo rápido e fácil, envolvê-la de popularidade, sem o vulgarismo perigoso do que é descartável, mas também sem a absurda pretensão do que se quer eterno.

Poesia para fazer rir e refletir, evoluir e incomodar, propor e decompor.

Poesia para os botecos, para os gabinetes, para as praças, para os salões de festas, para os mocambos, para as favelas, estúdios, vídeo clipes e palanques.

Poesia sem medo, poesia sem trauma, poesia-pão, poesia-sim, poesia-não.

Pois ia ousar um dia/popularizar a poesia.

Viva a poesia viva!"

VIVA PIO VARGAS

Muito obrigado.


Goiânia, 06 de março de 2024

Divino Alves de Oliveira - Coronel PM

Acadêmico Fundador da Cadeira nº 20

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