Há momentos na vida em que o tempo parece unir, silenciosamente, acontecimentos que, quando vividos, julgávamos inteiramente separados.Hoje, ao tomar posse na Cadeira nº 11 da Academia de Artes, Letras, Ciência e Cultura dos Militares de Goiás – AGL Mauro Borges, tenho exatamente essa sensação.
Recebo esta distinção com alegria, gratidão e, sobretudo, com a consciência da responsabilidade que acompanha a honra de ingressar nesta Casa.
Mas há algo que torna este momento particularmente especial para mim.
A Cadeira nº 11 tem como patrona Goiandira Ayres do Couto. E Goiandira não é, para mim, apenas um nome inscrito na história cultural de Goiás. Não é somente a artista extraordinária que conhecemos pelos livros, pelas exposições e pelas inúmeras referências à sua obra.
Eu tive a honra de conhecê-la em vida. Estive em sua casa. Conversei com ela. Ouvi suas histórias.
Vi de perto aquela mulher de fala baixa e serena, de educação exemplar e fino trato, cuja simplicidade parecia contrastar com a dimensão da obra que havia construído.
Goiandira gostava de receber. E gostava de mostrar suas coisas. Cada objeto parecia trazer consigo uma história, e ela tinha prazer em contá-la. Falava de sua arte, de suas lembranças, da Cidade de Goiás e, com particular carinho, de sua antiga relação com a Polícia Militar.
Lembro-me especialmente de sua preciosa coleção de areias coloridas da Serra Dourada. Aquelas centenas de tonalidades naturais, cuidadosamente guardadas, eram mais que matéria-prima.
Em suas mãos, pequenos grãos de areia deixavam de ser simplesmente parte da terra para se transformarem em casarões, igrejas, becos, paisagens, luzes e sombras.
Goiandira descobriu na própria terra de Goiás as cores com que haveria de eternizar Goiás.
Nascida em Catalão, em 12 de setembro de 1915, veio ainda criança para a antiga Vila Boa e fez desta cidade parte inseparável de sua existência. Filha de uma família ligada às letras e às artes, começou cedo a pintar e desenvolveu uma trajetória artística que atravessaria décadas.
Sua obra conheceu duas grandes fases. Primeiro vieram as pinturas a óleo.
Depois, a partir de 1968, surgiu aquilo que faria de Goiandira uma artista singular e reconhecida muito além das fronteiras de nosso Estado: a pintura com as areias coloridas da Serra Dourada.
A técnica era aparentemente simples quando descrita, mas extraordinariamente complexa quando executada. Desenhava, preparava a superfície e, com a ponta dos dedos, deixava cair os grãos escolhidos. A sensibilidade determinava a tonalidade, a quantidade, a luz e a sombra.
E a areia se transformava em arte.
Mais de quinhentas tonalidades naturais chegaram a compor seu acervo. Há nisso algo profundamente simbólico.
Outros poderiam caminhar pela Serra Dourada e enxergar apenas areia. Goiandira enxergou cores.
E talvez seja essa uma das características dos grandes artistas: perceber aquilo que sempre esteve diante dos olhos de todos, mas que ninguém havia ainda verdadeiramente visto.
Sua arte levou a paisagem vilaboense para museus, instituições e coleções no Brasil e no exterior. Os velhos casarões, as igrejas, os becos e as paisagens de nossa cidade encontraram, em suas mãos, uma forma singular de vencer o tempo.
Mas esta Academia preserva também outra dimensão de sua história, menos conhecida do grande público e especialmente cara a nós, militares estaduais.
Goiandira teve uma relação antiga e afetuosa com a Polícia Militar de Goiás.
Em uma época muito diferente da nossa, quando as mulheres ainda não integravam as fileiras da Corporação, ela se dispôs voluntariamente a ensinar policiais militares na antiga capital.
Era uma artista que entrava no quartel para ensinar.
E a memória oral preservou ainda uma passagem particularmente simbólica: conta-se que, naquele tempo em que o ambiente dos quartéis era essencialmente masculino, Goiandira teria mandado confeccionar para si uma farda, que vestia ao ministrar suas aulas aos policiais.
A imagem é belíssima.
Uma mulher muito à frente de seu tempo entrando voluntariamente em um quartel para ensinar.
Não levava consigo uma arma. Levava conhecimento.
Não estava ali por imposição de uma função. Estava por escolha.
Era professora. Era artista. Era cidadã.
E compreendia, já naquele tempo, que formar um policial também significava educar o homem que vestia a farda.
Sua contribuição não foi esquecida pela Polícia Militar de Goiás. O reconhecimento institucional de sua trajetória atravessou o tempo e permanece materializado de maneira especialmente significativa: a Biblioteca da Academia da Polícia Militar de Goiás leva hoje o nome de Goiandira Ayres do Couto.
Talvez nenhuma homenagem pudesse ser mais coerente.
Aquela que um dia entrou no quartel para levar conhecimento aos policiais permanece, simbolicamente, dentro da Academia de Polícia, dando seu nome justamente ao lugar onde o conhecimento é guardado, consultado e transmitido às novas gerações.
Há uma bela continuidade nessa história.
A professora que levou o conhecimento ao quartel passou a dar nome ao lugar onde o quartel preserva o conhecimento.
Talvez esteja também aí uma das razões daquele carinho pelos militares que pude perceber pessoalmente tantos anos depois.
Quando tive a oportunidade de ouvi-la falar sobre essa relação, havia afeto em suas lembranças. O quartel também fazia parte de sua história.
E, de alguma maneira, Goiandira continua fazendo parte da história do quartel.
Naqueles encontros, evidentemente, eu não poderia imaginar que a vida ainda reservaria este reencontro simbólico entre nossas trajetórias.
Eu, militar, estava diante daquela senhora, ouvindo histórias de seu passado com a Polícia Militar.
Os anos passaram.
Goiandira faleceu no dia 22 de agosto de 2011.
E quis o calendário que esta posse ocorresse em 27 de agosto de 2026, apenas cinco dias depois de completados quinze anos de seu falecimento.
A proximidade das datas acrescenta, para mim, um significado ainda mais especial a esta noite.
E há uma responsabilidade adicional.
Sou o primeiro ocupante da Cadeira nº 11.
Não recebo, portanto, uma cadeira que já tenha sido ocupada por outros acadêmicos. Cabe-me a honra de inaugurá-la e, com ela, iniciar uma trajetória acadêmica que nasce sob a memória e o patronato de Goiandira Ayres do Couto.
Isso me toca profundamente.
Porque, antes de conhecer a Cadeira nº 11, eu conheci sua patrona.
Antes de encontrar seu nome nos registros desta Academia, tive o privilégio de ouvir sua voz, conhecer sua gentileza, entrar em sua casa e escutar, dela própria, algumas das histórias que hoje ajudam a compreender a grandeza de sua trajetória.
Por isso, assumir esta cadeira representa para mim mais que uma distinção acadêmica.
Representa o compromisso de inaugurar uma história procurando ser digno da memória que lhe dá nome.
Os patronos de uma Academia não são apenas nomes destinados a identificar cadeiras. São referências. São aqueles que, por sua obra, por sua trajetória ou por seu exemplo, deixaram algo que merece atravessar gerações.
E nós, que recebemos a honra de ocupar essas cadeiras, somos seus guardiões por algum tempo.
No meu caso, essa responsabilidade começa de maneira muito particular.
Sendo o primeiro ocupante da Cadeira nº 11, não recebo de um antecessor uma tradição acadêmica já construída. Recebo diretamente o legado de sua patrona.
Cabe-me ajudar a escrever a primeira página desta cadeira.
E desejo fazê-lo honrando Goiandira não apenas pelo que realizou como artista, mas por aquilo que sua existência nos ensinou: o amor à cultura, o respeito à memória, a dedicação ao conhecimento e a capacidade de enxergar grandeza nas coisas aparentemente simples.
Talvez nenhuma imagem represente melhor sua vida do que aquela que ela própria nos legou.
Goiandira recolhia da Serra Dourada pequenos grãos de areia. Separava-os. Escolhia-os. E, pacientemente, com as próprias mãos, transformava-os em beleza.
Nós, que lidamos com as palavras, fazemos algo semelhante.
Também recolhemos fragmentos.
Uma lembrança. Um acontecimento. Um personagem. Uma história esquecida. Uma passagem da vida.
E tentamos reuni-los antes que o tempo os disperse.
Talvez seja esta, afinal, uma das mais belas missões de uma Academia: recolher os pequenos grãos da memória antes que sejam levados pelo vento do esquecimento.
Ao assumir a Cadeira nº 11, comprometo-me a fazer a minha parte.
E o faço com uma alegria adicional: a de saber que, antes de encontrar seu nome na cadeira que hoje passo a ocupar, tive o privilégio de encontrar Goiandira.
Não apenas a artista.
A pessoa.
E dela guardar uma lembrança que nenhum título acadêmico poderia me conceder.
Hoje escrevo apenas a primeira página de uma história que espero seja longa.
Outros virão. Outros ocuparão esta cadeira. Outras páginas serão escritas.
Mas haverá, antes de todas elas, um nome:
Goiandira Ayres do Couto.
Que eu seja digno de sua memória.
E que, enquanto me couber ocupar esta cadeira, jamais me esqueça de que alguns legados são construídos por grandes obras.
Outros, por pequenos gestos.
O de Goiandira foi feito de ambos.
E talvez haja nisso a mais bela lição de sua arte: ela nos mostrou que mesmo aquilo que parece pequeno e efêmero pode permanecer.
Afinal, foram simples grãos de areia, recolhidos da terra de Goiás, que suas mãos transformaram em arte.
E foi pela arte que esses grãos se tornaram memória.
Que eu saiba, com as palavras, cuidar da memória que hoje me é confiada.
Muito obrigado.
Goiânia, 27 de agosto de 2026.
Ronaldo Pereira Soares - Cel PM
Acadêmico Fundador da Cadeira nº 11

Um comentário:
Fantástico texto, com um retrato fiel e justo!
Desejo muito sucesso!
Postar um comentário